Oitavo mandamento

Data de publicação: 14/08/2015

Por Maria Inês Carniato, fsp *

 “Não levantar falso testemunho”

Os imigrantes italianos, chegados ao Sul do Brasil no século 19, improvisaram um meio trazer água das nascentes até as suas casas, utilizando troncos de bambu, um material que a natureza oferecia. A tradição oral gaúcha guarda casos divertidos daquele tempo e conta que, quando os canos de bambu apodreceram, os colonos não precisaram substituí-los, porque a água já conhecia tão bem o trajeto que continuou a correr sozinha até as tinas e tanques dos quintais. Essas anedotas são mentirinhas inocentes, que não prejudicam a ninguém e apenas divertem as crianças.

Risco de morte − Bem diferentes da memória lúdica do povo gaúcho, são a natureza e o efeito da calúnia, que o oitavo mandamento bíblico previne: “Não darás falso testemunho contra o teu próximo” (Ex 20,16).
A mentira é a primeira negação ao projeto de Deus. No Gênesis, a serpente formulou uma pergunta cretina com intenções malignas: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comais de nenhuma das árvores do jardim?’”. E a mulher, confiante e sem malícia, contou tudo: “Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus nos disse: ‘Não comais dele, nem sequer o toqueis. Do contrário, morrereis”’. A serpente, caluniando o próprio Deus de falsidade, argumentou: “De modo algum morrereis. Pelo contrário, Deus sabe que, no dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal” (cf. Gn 3,1-5).
Esse diálogo identifica o primeiro pecado, uma mentira que, devastando a inocência, arrastou o ser humano para o abismo da falta de confiança em Deus. Os sábios de Israel conheciam a víbora traiçoeira do deserto e a citaram como símbolo do mal que corrompe o ser humano, como um veneno, e o leva a não acreditar no projeto de Deus e a ficar fascinado por toda espécie de propostas mentirosas e “atraentes aos olhos” (cf. Gn 3,6b). 
A calúnia, em Israel, trazia risco de morte porque o depoimento das testemunhas era decisivo para a condenação ou a liberdade, caso um acusado não pudesse comprovar inocência. Uma palavra falsa contra alguém, por vingança ou por inveja, podia ser fatal, como a própria Bíblia relata: “Não me exponhas à fúria dos meus adversários; contra mim se levantaram falsas testemunhas que anseiam por violência” (Sl 27,12); “Não espalharás boatos mentirosos, nem colaborarás com o ímpio como testemunha falsa. Não tomarás o partido da maioria para fazer o mal. Em processo, não deponhas inclinando-te pela maioria e distorcendo o direito” (Ex 23,1-2).

Veneno de serpente − O povo de Israel escreveu a Bíblia e mostrou ao mundo o mais fantástico trabalho de comunicação jamais realizado em todos os tempos. Prova disso é que a Bíblia é o livro mais vendido e mais lido no mundo inteiro. Estranhamente, porém, nos tempos modernos, quando a comunicação passou a mediar a opinião pública, a verdade e a justiça deram lugar a uma liberdade de informação nem sempre coerente com a ética e, menos ainda, com os princípios bíblicos.
Hoje, para muitos, dizer: “saiu no jornal”, “deu no rádio”, “a TV mostrou”, “a revista comentou” ou “foi postado nas redes sociais” é confirmar que um fato é verdadeiro. Por detrás de tanta confiança, sabe-se, porém, que os veículos de comunicação podem aumentar alguns aspectos da verdade e silenciar outros, criando ideias falsas e até caluniosas sobre pessoas e fatos. O imenso poder da comunicação pode ser humilhantemente subjugado por interesses econômicos maldosos de elites que mandam no País há séculos e não suportam a ideia de perder privilégios em favor de mudanças que visam a expandir para todo, o acesso a uma vida melhor. Assim, o veneno de serpente inoculado na opinião pública, por meio de acusações e calúnias sem provas e da omissão de verdades, manipula as consciências até o ponto de pessoas dos melhores níveis sociais irem às ruas berrar slogans em favor de retrocessos grotescos, tais como a volta do regime militar à política brasileira.
Palavras de baixo calão ostentadas em cartazes, durante uma das últimas manifestações, mostraram a que nível pode descer o conceito de cidadania e de civilidade elementar e, ainda, como as pessoas com baixo nível de sensibilidade e humanidade, que não se vincula à educação formal que tiveram, são muito mais manipuláveis pelas mentiras publicadas em certos veículos da mídia nacional. Isso, no meio de um povo que parecia já ter avançado tanto na ética e na consciência política!
Durante as recentes passeatas, um cartaz dizia: “Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire”, ao que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), imediatamente reagiu, publicando em seu site um pensamento do educador e filósofo brasileiro mais reconhecido mundialmente: “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo” (Paulo Freire).          
Com toda a razão, escreveu Paulo Freire, exatamente no fim da ditadura militar brasileira: “Através da manipulação, as elites dominadoras vão tentando conformar as massas populares aos seus objetivos. E quanto mais imaturas politicamente estejam, tanto mais facilmente se deixam manipular pelas elites dominadoras que não podem querer que se esgote o seu poder” (Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 172).
Mentira e calúnia causam efeitos não apenas na vida dos cidadãos, como também no processo democrático de uma nação. Cristãos que se rebaixam a essa medida de inconsciência atualizam o pecado da serpente, que será mais grave ainda, se tais cristãos estiverem, com isso, defendendo interesses egocêntricos e injustos.

Tal pai, tal filha − Quando uma massa de gente incapaz de discernir se deixa manipular, cegada pelo veneno de serpente da mentira e pela omissão da verdade e da justiça, faz lembrar aquela cena dos Evangelhos na qual uma vara de suínos se atirou precipício abaixo, empurrada por uma legião de maus espíritos (cf. Mc 5,1-14).
É bom lembrar que, no tempo de Jesus, as mesmas elites manipuladoras caluniavam quem se opusesse aos seus interesses egoístas. E quando Jesus é batido de frente pela hipocrisia de seus conterrâneos, dirige-lhes palavras alinhadas com o pensar do livro do Gênesis. “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37); “O vosso pai é o diabo, e quereis cumprir o desejo de vosso pai. Ele era assassino desde o começo e não se manteve na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele fala mentira, fala o que é próprio dele, pois ele é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44).
Vemos Jesus irritado e irreverente contra os mentirosos que, em defesa de privilégios próprios e de suas corporações, não tinham escrúpulo nenhum em manipular os outros em nome de Deus. Quando a Igreja ensina no oitavo mandamento: “Não levantar falso testemunho”, ela espera que nós, cristãos atuais, não apenas evitemos mentir ou caluniar alguém, mas também não nos deixemos cegar e arrastar, como irracionais, pelas grandes mentiras políticas e econômicas que envenenam o mundo.   

Na próxima edição, o nono mandamento.
* Maria Inês Carniato é irmã paulina, mestra em teologia

Os dez mandamentos
1ª Eu sou o Senhor, teu Deus. Não terás outros deuses diante de mim.
2ª Não pronunciar o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
3ª Santificar os domingos e festas de guarda.
4ª Honra pai e mãe.
5ª Não matarás.
6ª Não cometerás atos impuros.
7ª Não roubarás.
8ª Não levantarás falso testemunho.
9ª Não cobiçarás a mulher do teu próximo.
10ª Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem nada que lhe pertença.










Fonte: Edição 953,maio 2015
Postado por: Família Cristã




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