Um minuto para o silêncio

Data de publicação: 09/09/2015

     
Sinal de humildade, oferta e abandono, esta abertura silenciosa se aprofunda de maneira significativa quando nos colocamos diante do absolutamente Outro

Crédito: Clovis Salgado Gontijo *   
Arte: Sergio Ricciuto Conte *     

Após termos verificado, no último artigo (edição 953 da Revista Família Cristã), a fecundidade do obscuro para a espiritualidade cristã e a experiência estética, é hora de aceitar o desafio de abordar por via verbal o silêncio, tema igualmente fecundo para esses dois âmbitos cujos pontos de interseção me propus examinar. Curiosamente, em tal proposta construída sobre entrelaçamentos, o apagar das imagens externas e o calar dos ruídos se conectam, remetendo a alguns dos temas já tratados nesta série de artigos.

Em sintonia com o obscuro - Em primeiro lugar, tanto a escuridão quanto o silêncio permitem não só o afastamento de uma realidade cotidiana, óbvia e por vezes artificial, mas também a entrada numa dimensão mais profunda, que equivale a um contato pleno com o íntimo de nós mesmos. Como metáfora desse processo, vale lembrar que enquanto contemplamos, frente a uma janela nas horas noturnas, o reflexo de nosso rosto iluminado por uma lâmpada, no extremo silêncio descobrimos as desconhecidas sonoridades que habitam nosso corpo. É o que nos mostra o compositor contemporâneo John Cage, que, fascinado pelo tema em questão, se submeteu à experiência de entrar numa câmara completamente isolada de ruídos externos, mas, ainda assim, pôde escutar dois sons, mais tarde identificados como o seu sistema nervoso em operação e o seu sangue em circulação.
Por esse episódio, constatamos que a escuridão e o silêncio se interceptam ao potencializar a escuta. Se escutamos de modo mais concentrado na obscuridade que elimina as distrações visuais, apuramos nossos ouvidos quando imersos em atmosfera silenciosa. Considerando essa dinâmica, é provável que, de todas as artes, a música seja aquela que mais exija do receptor um mergulho no silêncio, pelo qual se torna possível não só rejeitar todo o som estranho à composição executada, mas também detectar suas infinitas nuanças.

O silêncio como atitude - Assim como a música, a espiritualidade bíblica concede lugar de destaque ao tema deste artigo, ao nos convocar para a escuta de um Deus que se manifesta eminentemente como Palavra. A fim de ouvi-la, torna-se necessário impedir que as agitações ruidosas tomem conta de nossa interioridade. Nesse sentido, o silêncio se expressa como atitude. Enquanto falamos, somos donos de nós mesmos, autores de ideias, gestos e sentimentos que, muitas vezes, nos confundem e dilaceram. Já quando nos silenciamos, abrimo-nos dando prioridade ao outro, de cuja fala pode brotar algo inteiramente novo. Sinal de humildade, oferta e abandono, esta abertura silenciosa se aprofunda de maneira significativa quando nos colocamos diante do absolutamente Outro. É assim que “o ato mais silencioso de todos é exatamente recordar e buscar Deus, estar diante dele”, explica o teólogo Silvio José Báez, em seu belo estudo Quando Tudo se Cala: O Silêncio na Bíblia. Também contribui para a atitude silenciosa do fiel o fato de o Sumo Mistério ultrapassar a linguagem e o entendimento humano. Segundo as palavras do místico Angelus Silesius, “Deus é tão superior a tudo que nada pode expressá-lo. / Por isso, adorá-lo-ás melhor em silêncio”. Reencontramos aqui o silêncio inefável, presente não só no momento final de uma experiência que ultrapassa a linguagem (tema abordado na edição 949 da Revista Família Cristã), mas também na própria busca pelo Absoluto, realizada pela criatura que já saboreou a natureza insondável do Criador ou, ao menos, o mistério que perpassa a vida.
No campo da apreciação estética, também uma obra de arte ou um evento da natureza, parece nos pedir, como Deus pede a Jó e a cada um de nós: “Presta atenção, Jó, e escuta, cala-te, enquanto falo” (Jó 33,31). O objeto propulsor dos sentimentos do belo e do sublime “falará” palavras, imagens ou sons que só acolheremos quando, além de garantir o silêncio externo nas salas de exposição e de concerto, nos calarmos internamente, confiando na novidade e na alteridade do espetáculo que nos é apresentado. Se o silêncio se manifesta como atitude de confiança espiritual (cf.Sl 37,7) e estética, ele também eclode como reação de admiração em ambos os níveis. Frente às maravilhas do Senhor, não nos surpreende que as nações, “apesar de todo o seu poderio, ponham a mão à boca” (Mq 7,16). De modo similar, o assombro frente à infinitude de uma paisagem ou à interpretação virtuosística e comovente de um instrumentista, deixa-nos, com frequência, boquiabertos...

O silêncio como via para o silêncio - Retomando o parentesco entre a escuridão e o silêncio, é interessante observar que, tanto na espiritualidade quanto na apreciação estética, o meio se assemelha ao fim. Santa Teresinha nos diz, em uma de suas Cartas, que para encontrar o “tesouro escondido” (Mt 13,44) também devemos nos esconder. Não é por acaso que o quarto fechado (cf.Mt 6,6) e escuro se apresenta como via privilegiada para o encontro com o Deus escondido entre as névoas. Também vimos que a escuridão se mostra fecunda para a recepção de uma arte obscura como a música, destituída de referências a imagens, cenas e afetos precisos. Por outro lado, como sugere Max Picard em Le Monde du Silence, ao fazer profundo silêncio, “o homem se aproxima do silêncio que circunda Deus”. Raciocínio que justifica outro aforismo de Silesius: “Acreditas, pobre homem, que o grito de tua boca / seja o louvor adequado para a divindade silenciosa?”. E também não devemos nos calar para apreciar o mutismo da pintura ou uma composição musical, que, além de se construir sobre o oceano do silêncio, se manifesta, em oposição ao burburinho do dia a dia, como especial expressão do silêncio?
Ao encerrar este artigo, concluímos que, apesar do desafio a princípio colocado, o tema do silêncio é verbalmente inesgotável, confirmando, assim, sua inefabilidade. Contudo, se não podemos prolongar seu estudo neste artigo, prolonguemos o próprio silêncio, vivenciando-o por alguns minutos. Quem sabe, como orienta Picard, devamos fazer um minuto de silêncio para o silêncio, que, à semelhança da escuridão, agoniza no mundo contemporâneo, por nosso horror ao vazio ou por sua suposta inutilidade... Inutilidade identificada por quem também desconsidera a necessidade desses dois âmbitos para os quais o silêncio se revela particularmente fecundo.

* Clovis Salgado Gontijo tem formação em Música, Bacharel em Pian em Filosofia. Doutor em Estética pela Faculdade de Artes da Universidade do Chile, dedica suas pesquisas ao pensamento de Vladimir Jankélévitch, à Filosofia da Música e às relações entre a Mística e a Estética. Desde 2011, é professor assistente da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), em Belo Horizonte.

* Sergio Ricciuto Conte é formado em Arte, Filosofia e Teologia. Assinou pinturas em várias cidades da Itália e do Brasil. Atualmente é envolvido em projetos de arte para espaços litúrgicos, assim como na ilustração infantil e editorial, www.sergioricciutoconte.com.br


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Fonte: Edição 954,junho 2015
Postado por: Família Cristã




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