De barro e de fogo

Data de publicação: 25/09/2015

O universo escultural da Oficina de Brennand, propriedade Santos Cosme e Damião, Recife, Pernambuco


Por: Véronique Donard
Fotos: Paulo Maia

O artista −
11 de junho de 1927. O Engenho São João, na cidade do Recife, acolhe a vida de um novo ser, Francisco de Paula. O pai, Ricardo de Almeida Brennand, homem cultivado, erudito, pianista, apaixonado pela literatura e pela pintura. A mãe, Olímpia Padilha Nunes Coimbra, mulher inteligente e recatada, nem sempre feliz em seu matrimônio, como tantas mulheres de sua época.
No engenho, além do amor pelas artes, reinava a fascinação pela matéria cerâmica, tendo Ricardo criado, em 1917, a primeira fábrica de cerâmicas da família. Cresceu assim o pequeno Francisco, rodeado de quadros, livros, respirando o cheiro do barro, não tardando em revelar seus impressionantes dotes de artista, como pintor, escultor e escritor – sendo este último aspecto de seu talento ainda pouco conhecido.
Quando tinha apenas 16 anos, seu pai, que havia adquirido uma coleção de quadros, havia lhe pedido que cuidasse de sua restauração. Foi assim que conheceu Álvaro Amorim, um dos fundadores da Escola de Belas Artes do Recife, que se dispôs a realizar o trabalho, e que o iniciou ao mundo da pintura. Álvaro Amorim apresentou o talentoso adolescente a Mário Nunes, Baltazar da Câmara e Murilo La Greca, igualmente fundadores da escola. Com o tempo, Brennand passou a acompanhá-los quando saíam para pintar em pleno campo. Pouco mais tarde, Abelardo da Hora, que seu pai havia convidado para trabalhar em sua fábrica de cerâmica, botou-lhe, pela primeira vez, o barro nas mãos.
No entanto, o jovem Francisco considerava a cerâmica uma arte menor. Sua preocupação, naquela época, estava voltada para a pintura. Suas primeiras telas revelavam uma clara influência de pintores espanhóis como El Greco, o José de Ribera. Expôs, pela primeira vez, no salão do Museu do Estado, tendo apenas 20 anos, as telas: Primeira Visão da Terra Santa e Segunda Visão da Terra Santa, quadro este pelo qual recebeu o Primeiro Prêmio. No ano seguinte, recidiva com Frade em Oração, e Auto-Retrato como Cardeal Inquisidor, recebendo igualmente o Primeiro Prêmio e uma Menção Honrosa. Com isso, o(a) leitor(a) perceberá que a preocupação primeira de Brennand sempre foi, paradoxalmente, a sacralidade e a santidade...
Depois de duas estadas na Europa, onde descobre a potencialidade artística da cerâmica, Francisco  instala-se no Brasil e passa a trabalhar com o pai, realizando murais na fábrica de azulejos inaugurada em 1954. No entanto, os negócios de Ricardo não prosperam. Em novembro de 1971, Francisco faz da Cerâmica São João da Várzea, então praticamente em ruínas, sua moradia permanente, e começa a reconstruí-la. Foi assim dado início a um colossal projeto de esculturas que iria povoar os espaços internos e externos do ambiente, transformando a propriedade familiar num mundo de sonhos e tormentos.


A Oficina Brennand − Hoje, o visitante que penetra na propriedade se encontra frente a uma obra prolífica, colossal, dedicada à mãe-terra e à criação. Sob o olhar atento de um enigmático feiticeiro, cercado por uma fauna na que animais locais se mesclam com seres mitológicos, protegido por um exército de pássaros rocca, encontra-se um templo que abriga em sua abóbada o ovo primordial, matriz de todas as formas.
No entanto, o ovo também alberga, segundo Brennand, a gestação do mal radical. Esse desejo de representar uma realidade ambivalente é constante em sua obra. A presença do mal, latente, que podemos perceber sem sermos capazes de identificá-lo. Esse mal que aponta gradualmente a cabeça é simbolizado por uma cobra que perfura a casca de seu ovo. A sensação que domina em sua obra, para o artista, é o medo, o mesmo terror experimentado por Nikolai Gogol, escritor russo... Medo do mistério, medo da morte, medo de si próprio...
Sendo assim, o visitante da Oficina Brennand sente-se de imediato transportado ao tempo primordial, chamado pelos cientistas de “tempo zero”, àquele que, antes da cronologia, presidia e ainda preside ao mistério da criação do universo. Este tempo é a mesma temporalidade da origem, momento eterno, infinito, que assistiu à irrupção da vida e ao mistério da morte.
Talvez por isso o universo da Oficina Brennand exige ao visitante que se cale. O silêncio é regra, o silêncio se impõe. Mas, trata-se sobretudo de um mundo que priva gradualmente o sujeito de suas palavras e de suas faculdades intelectivas. De fato, quem entra pela primeira vez nas salas de exposição geralmente se imobiliza, estupefato, frente à selva de esculturas com as quais se depara. Pode até acontecer que se sinta ameaçado pela força misteriosa que emana das obras, e que, então, vá embora. No entanto, se ficar, se aceitar o impacto e deixar seus sentidos entrarem em contato com as esculturas, se tomar o tempo necessário para dar ouvido ao universo silencioso e ao mesmo tempo sonoro que delas emerge, então, na sacralidade deste lugar tão particular, ele poderá sentir a incrível força de vida que nelas bate, com uma ínfima e ao mesmo tempo irredutível pulsação. Ele perceberá então que cada obra possui um enigma que lhe é próprio, uma história, um momento, um universo em si, assim como ela faz parte de um todo.
Essas esculturas, que na oficina nasceram, têm nela a sua moradia, suas raízes, sendo este o principal motivo pelo qual Brennand não as vende. Como poderia ele atrever-se a desarraigá-las do solo que as viu nascer? Se lhe perguntarem por que, ele lhes explicará que “fazem parte de uma história de cujo livro não se pode arrancar páginas, sob pena de já não saber o que conta”. De algum modo, sem cair num animismo primário, poderíamos dizer que, para o artista, e para muitos que se defrontam com o seu universo, as peças esculturais da oficina possuem alma própria. “Imóvel, mas não inerte”, sentencia uma placa que adverte o visitante que se prepara a entrar nas salas onde as peças se encontram expostas.

Com Brennand − O fotógrafo Paulo Maia e eu mesma tivemos a sorte de ter as portas da oficina abertas para nossas indagações e pesquisas, desde alguns anos até hoje, ainda. De minhas numerosas entrevistas com Francisco nasceu uma amizade atemporal, de poucas demonstrações, porém fundamentada sobre um profundo respeito e admiração recíprocos. Francisco Brennand é um ser sensível e afável, inteligentíssimo – quase estonteia o interlocutor, de tão inteligente – diria que um tanto tímido, pouco acomodado com o trato social e com o falar em vão. Embora quando fale, fale muito, como se tivesse que recuperar não se sabe que tempo perdido, é, sem lugar a dúvidas, um homem de poucas palavras. Possui uma cultura prodigiosa, uma particular devoção à língua francesa, que fala bem apesar do pouco praticar, tendo lido os grandes autores francófonos no texto original. Ele próprio escreve magistralmente.
Francisco sabe de história da arte como ninguém, e escutá-lo dissertar sobre o cubismo ou o impressionismo vale por uma especialização nos melhores museus deste mundo afora. Seu olhar é um olhar gráfico, que vê cores, formas, relevos e traços em vez de imagens lisas e monótonas. Ele encara a vida como uma obra de arte em perpétuo devir. Talvez seja, para ele, este o maior enigma: fazer parte deste fluxo criativo, contribuindo ao acontecer da vida sem desvirtuá-la ou empobrecê-la.
Dialogando com sua faceta de escultor e ceramista, percebe-se que, para ele, a função criadora é verdadeiramente desempenhada pelo fogo. Por isso, aguarda com ansiedade e excitação a saída de suas esculturas do forno para descobrir o trabalho transformador da fornalha com a qual ele afirma unicamente colaborar. Francisco faz experiências com cozimentos sucessivos, às vezes por dezenas, para poder aperfeiçoar uma técnica que dá ao fogo o papel principal, pois só o fogo pode levar uma obra à perfeição. Embora ele se defina, na maioria das vezes, antes de tudo como pintor, sempre lamenta que suas pinturas não possam passar pelo fogo, para, desse modo, se tornarem perfeitas.

O sexual − No que diz respeito à onipresença das temáticas sexuais em sua obra, seja ela escultural ou pictural, é importante prestar atenção no fato de que a sexualidade explícita das esculturas não tem o mesmo teor que a das pinturas expostas na Accademia – espaço de exposição de seus quadros.
Com certeza, não cabe omitir o embaraço que a crueza, quase a crueldade da sexualidade do acervo escultural, pode causar no visitante. De fato, o universo extremamente sexual de Brennand nunca deixa de provocar fascinação, excitação, risadas irônicas ou incomodadas, mas também, em alguns, horror e até nojo. Brennand cita assim, quase agradecido, os termos que uma senhora idosa proferiu ao entrar por acaso na oficina: “Isto é uma carnificina!”. Ele em seguida decreta, com um sorriso malicioso, ter sido esta senhora sua “primeira verdadeira crítica de arte”. Não se trata de uma complacência no horror do outro, mas a expressão do pasmo do artista, comunicada num questionamento ao público, como se o contágio pelo ver pudesse ser um meio de despojar-se de suas interrogações, de encontrar um alívio momentâneo, mas, também, de encontrar uma resposta no olhar do outro.
Assim sendo, o leitor não estranhará a alegação do artista de que sua obra escultural não possui nada de erótico, deixando o adjetivo para suas pinturas. Pornográfica, então? Unicamente se admitirmos que a pornografia não é senão a encenação de uma sexualidade essencialmente psíquica e não física. No caso do ser humano e contrariamente aos animais, diz Brennand, aos órgãos cabe a reprodução, à mente a sexualidade. O artista não brinca com a sexualidade, ao contrário. O assunto é para ele muito sério, sagrado.
Fica, portanto, o convite ao(à) leitor(a) de poder realizar por si próprio a experiência de imersão no universo escultural da Oficina Brennand. Dela não sairá ileso(a), podemos garantir.










Fonte: Edição 956, agosto de 2015
Postado por: Família Cristã




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