O pão nosso da comunicação

Data de publicação: 27/04/2017

Por Moisés Sbardelotto

Comunicar é multiplicar palavras, sons, imagens, para manter vivas as relações interpessoais, na reciprocidade dos laços humanos



Comunicar esperança e confiança, no nosso tempo: este é o título da mensagem do papa Francisco para o 51ª Dia Mundial das Comunicações Sociais, que será celebrado no dia 28 de maio, festa da Ascensão do Senhor. O texto, divulgado há poucas semanas, reflete sobre a frase do profeta Isaías: “Não tenhas medo, que Eu estou contigo” (Is 43,5). O pontífice situa a sua reflexão em um contexto comunicativo marcado, muitas vezes, por más notícias (guerras, terrorismo, escândalos e todo tipo de fracasso nas vicissitudes humanas). O convite é a romper o círculo vicioso da angústia e deter a espiral do medo”, resultante do hábito de fixar a atenção nesse tipo de conteúdo. Por isso, a mensagem exorta a uma “comunicação construtiva, que, rejeitando os preconceitos contra o outro, promova uma cultura do encontro por meio da qual se possa aprender a olhar, com convicta confiança, a realidade”.
A mensagem parte de um cenário comunicacional que conhecemos muito de perto no Brasil, em que o jornalismo sensacionalista e a intolerância nas redes sociais digitais vão ganhando cada vez mais espaço. “Em um sistema comunicativo” – afirma o papa – “em que vigora a lógica de que uma boa notícia não ‘pega’ e, portanto, não é uma notícia, e onde o drama da dor e o mistério do mal são facilmente espetacularizados, podemos ser tentados a anestesiar a consciência ou a cair no desespero”. Diante disso, Francisco convida a “ultrapassar aquele sentimento de mau humor e de resignação que muitas vezes se apodera de nós, jogando-nos na apatia, gerando medos ou a impressão de que não é possível pôr limites ao mal”.

Fermento vivo e ativo – Para isso, o papa apresenta o ícone da “Boa Notícia por excelência, ou seja, o ‘Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus’”. A partir dessa imagem, ele convida a buscar um “estilo comunicativo aberto e criativo, que nunca esteja disposto a conceder um papel de protagonista ao mal, mas procure evidenciar as possíveis soluções, inspirando uma abordagem propositiva e responsável nas pessoas às quais se comunica a notícia”. Assim, Francisco convida e encoraja a todos, no seu dia a dia, a oferecer relatos “permeados pela lógica da ‘boa notícia’”. 
Para revelar essa lógica, o pontífice usa diversas metáforas – óculos, semente, farol etc. –, mas há uma principal, que simboliza a própria Boa Notícia por excelência e orienta toda a mensagem. Trata-se do pão. “A mente do homem está sempre em ação e não pode parar de ‘moer’ o que recebe, mas cabe a nós decidir o material que lhe fornecemos”. Por isso, o papa dirige a sua mensagem como um encorajamento a “todos aqueles que diariamente, seja no âmbito profissional, seja nas relações pessoais, ‘moem’ tantas informações para oferecer um pão perfumado e bom àqueles que se alimentam dos frutos da sua comunicação”.
Em um encontro com os membros do Movimento dos Focolares, em fevereiro passado, o papa aprofundou essa metáfora. Francisco explicou que, em uma época em que não havia geladeiras, para conservar o fermento-mãe do pão, uma vizinha doava à outra um pouco da massa fermentada e, quando tinha que fazer pão de novo, recebia de volta um pouco dessa massa. Esse gesto de reciprocidade mantinha o fermento vivo e ativo, sem deixá-lo apodrecer, em uma corrente de generosidade em que um pão gerava outro pão, uma mão ajudava a outra. Assim, “a comunhão não é só divisão, mas também multiplicação dos bens, criação de novo pão, de novos bens, de novo Bem com maiúscula”.
O mesmo pode ser dito sobre a comunicação. Comunicar é multiplicar palavras, sons, imagens, para manter vivas as relações interpessoais, na reciprocidade dos laços humanos. É ser criativamente generoso, inclusive onde parece faltar o “fermento” necessário para o “pão” da comunicação. Como afirma Francisco, até mesmo “qualquer novo drama que aconteça na história do mundo torna-se cenário possível também de uma boa notícia, uma vez que o amor consegue sempre encontrar o caminho da proximidade e suscitar corações capazes de se comover, rostos capazes de não se abater, mãos prontas a construir”. Por isso, dentro de uma perspectiva cristã, toda pessoa que, “com fé, se deixa guiar pelo Espírito Santo, torna-se capaz de discernir em cada evento o que acontece entre Deus e a humanidade”, reconhecendo a Sua presença no cenário dramático deste mundo. Vendo e lendo a realidade a partir dos óculos da Boa Notícia que é Jesus, “o próprio sofrimento é vivido em um quadro mais amplo, como parte do seu amor ao Pai e à humanidade”.

Iluminar a boa notícia – Ao relacionar a lógica da boa notícia com tais símbolos, Francisco eleva a própria metáfora como “forma misericordiosa” de comunicação. A metáfora, diz o papa, “deixa ao ouvinte o ‘espaço’ de liberdade”, que, assim, pode acolher a “força humilde do Reino”. E o próprio pontífice argentino tem uma grande capacidade de “metaforizar”: “cheiro de ovelhas”, “Igreja em saída”, “periferias existenciais”, “Igreja hospital de campanha” etc. É o mesmo que Jesus fazia para falar do Reino, ao usar as parábolas da ovelha perdida, da lâmpada, da moeda, da pérola, da semente de mostarda...
Isto é, são as próprias imagens, mais do que qualquer conceito teórico, que comunicam a beleza da boa notícia, da vida nova em Cristo. “Compreender as metáforas” – confidenciou Francisco aos jesuítas da revista italiana La Civiltà Cattolica, em uma audiência em fevereiro passado – “ajuda a tornar o pensamento ágil, intuitivo, flexível, afiado. Quem tem imaginação não se enrijece, tem senso de humor, desfruta sempre da doçura da misericórdia e da liberdade interior”.
Voltando à mensagem, Francisco encerra o texto recorrendo ainda a outras metáforas para convocar todas as pessoas a serem comunicadoras de boas notícias e da Boa Notícia por excelência. O desafio proposto é tornar-se “ícones do amor de Deus”, “‘canais’ vivos” do Reino, “faróis na escuridão deste mundo, que iluminam a rota e abrem sendeiros novos de confiança e esperança”. Só assim “é possível enxergar e iluminar a boa notícia presente na realidade de cada história e no rosto de cada pessoa”, reconhecendo que, mesmo em meio ao mal, à dor e ao sofrimento, Deus está compondo “a trama de uma história de salvação”.




Fonte: FC edição 975 - Março 2017
Postado por: Família Cristã




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