Casas do povo

Data de publicação: 18/10/2017

Por Arthur Maciel , do Recife (PE)

São 30 mercados públicos no Recife e mais de uma centena espalhados por Pernambuco, onde prevalecem elementos da cultura regional

A rotina é a mesma para todos. Abrir às 6 horas, fechar às 18 horas. São portões de ferro robustos, como as estruturas de paredes sólidas. Mas cada um tem história, arquitetura e freguesia próprias, que condizem com o contexto local – afora os mercados centrais, São José e Boa Vista, que percebem público variado, de todas as camadas sociais e cantos do Recife (PE) e também gente de fora. O Mercado da Encruzilhada mesmo foi inaugurado no primeiro ano da década de 1950, aos 9 de dezembro, no Largo da Encruzilhada, logradouro que ainda mantém um firme comércio de eletrônicos, vestuário, móveis, calçados, panificações, supermercados, bancos, restaurantes, bares e muito mais. Congrega bairros nobres da zona norte do Recife, como Espinheiro, Graças, Rosarinho, Aflitos, Jaqueira, Campo Grande e Hipódromo.
Os mercados de São José, Boa Vista e da Encruzilhada são referências locais, apesar de suas diferenças. O da Encruzilhada, por exemplo, é maior que o de São José em área construída, mas detém a metade de boxes, cerca de 200 em funcionamento. E uma praça de alimentação melhor e a mais completa de todos os mercados públicos do Recife. Nela, reúne-se a confraria portuguesa a degustar bacalhau e polvo, culinária implantada pelo compatrício Manuel José Alves, 75 anos, oriundo de Trás-os-Montes, próximo a Bragança, de onde surgiu a inspiração para o nome do estabelecimento, O Bragantino.

Símbolo – Também há a confraria sertaneja, onde se degusta uma galinha de capoeira (ou caipira) com pirão e legumes e é possível experimentar uma – ou mais! –, dentre as cerca de 300 marcas de cachaça artesanal da Paraíba, do Ceará, da Bahia, de Pernambuco ou Minas Gerais, na cachaçaria Minha Deusa, mais antiga do Recife e referência nessa especialidade tão brasileira. Chegando lá converse com Joás Ramos Xavier, 47 anos, que transformou a lanchonete do pai Lao, como era chamada, num centro de degustação regional. Essa praça é a ala nobre do mercado, apesar dos problemas e dificuldades visíveis aos olhos atentos, com o madeiramento do teto precário, piso inadequado e banheiros mal higienizados. Marcas do tempo presente – e passado – notáveis em todos os mercados públicos.
“O mercado, e isso vale para todos os de Pernambuco, é símbolo da cultura nordestina. Nele, você encontra não somente os produtos característicos do nosso cotidiano, como a carne de sol, o charque, o queijo coalho e de manteiga, o couro, as ervas, mas também personalidades da nossa cultura”, observa o empresário Luciano Oliveira, que juntou profissionais liberais, cantores e compositores, poetas, repentistas e aboiadores – vaqueiros que conduzem as boiadas – na associação Parceiros dos Mercados. Juntos, organizam encontros e saraus, além de apresentações dos músicos envolvidos com o cotidiano dos mercados. “É um projeto de valorização da cultura do Nordeste. Os mercados simbolizam bem nossos costumes”, explica o cantor João Lacerda, filho do já falecido Genival Lacerda, consagrado por suas maliciosas canções com letras de duplo sentido.
 
É o povo! – Ande-se pelos corredores dos pavilhões do Mercado da Encruzilhada, construído sob as ordens do então governador Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000), também jornalista e escritor, e depare-se com barbearias típicas dos anos 1950. O corte de cabelo a 20 reais; barba a 15, conforme a tabela. “Faço barba desenhada. Muitos homens vêm aqui para isso”, explica Ubiraci Alves Boaventura, 61 anos, cujo negócio foi herdado do pai juntamente com o irmão, Jorge Barbosa. Há ainda oficinas para conserto de sapatos, bolsas e malas. Além de estabelecimentos com tecidos e aviamentos, corte e costura, ferragem, material hidráulico e elétrico, utilidades domésticas, frigoríficos e peixarias, ração animal, plantas, vasos, adubos e as especialidades presentes em praticamente todos os mercados da cidade, como os temperos e ervas, os melhores queijos regionais, coalho e manteiga oriundos do sertão, defumados, carne de sol e de bode, linguiças, manteiga de garrafa e da fazenda, goma de tapioca e feijão-verde... Aliás, em todo mercado do Recife se bate os olhos numa bacia sobre um banco e dedos ágeis a debulhar as vagens de feijão-verde: mantimentos vitais do nordestino.
“Quem faz o mercado é o povo. Isso aqui é a minha família, minha vida”, narra o sapateiro Agamenon da Silva, 79 anos e 66 descendentes – 14 filhos, 36 netos e 16 bisnetos.  “Mercado é negócio hereditário”, concorda a presidente da associação comercial dos locatários do Mercado de São José, Ceça Tavares, permissionária de três boxes. Ela segue os passos de pai e mãe, comerciantes de aves vivas, ovos e farinha do Mercado da Encruzilhada. Mas diferente deles, foi no ramo das ervas que se especializou, fruto de outra herança familiar. O avô materno, índio Xucuru, passou à neta seu saber sobre raízes e ervas que colhia nas terras do distrito de Passassunga, cidade de Bom Jardim, no agreste pernambucano. Por isso, ervas, mel e garrafadas para todos os males não faltam no Mercado de São José. Basta procurar a Ceça.

À francesa – Passear pelos corredores estreitos do mercado é um convite aos sentidos. Desperta o aroma nos cheiros de ervas, carnes defumadas, linguiças, peixes e crustáceos. “Até tubarão surge por aqui”, atesta o comerciante Mário Antonino de Souto, 81 anos, 50 anos de mercado. São três comércios primordiais nos boxes internos do São José: carnes, peixes, crustáceos e frios, num setor à direita da entrada principal. Artesanato de corda, couro, palha, madeira, barro, bordados, renascença, redes, em quase todos os cantos. E religiosos, com imagens, velas, miçangas, oferendas, fantasias, produtos ligados à umbanda, aos caboclos e às caboclas, em um cantinho menor, mas de presença marcante pelas formas e cores, e de muita vitalidade nas vendas.

Nos externos, prevalecem as ervas, mel e garrafadas, tabacarias, grãos, amendoim, semente de guaraná e outras de origem amazônica, confeitarias e um sem-fim de ambulantes, da feira livre a eletrônicos, papelaria e material escolar e de escritório, ferragens, panelas, coco, caldo de cana, pães e bolos, sorvetes e picolés, que compõem um movimento frenético. É o maior centro de comércio popular do Recife. E já monumento tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) por ser o mais antigo edifício pré-fabricado em ferro do Brasil. Inaugurado em 7 de setembro de 1875, sua estrutura foi fabricada na França e trazida de navio. Em 1989, um incêndio destruiu mais da metade do mercado. Apenas em 1994 foi concluída a restauração, e o mercado retomou seu lugar na cidade.

Contemplação A beleza da arquitetura impressiona quem se permite observar as estruturas, por dentro e por fora, das paredes. O projeto é do engenheiro da Câmara Municipal do Recife, Louis Lieuthier, e a construção ficou a cargo do engenheiro francês Louis Léger Vauthier, responsável também pela construção do Teatro de Santa Isabel. A arquitetura é inspirada no Mercado de Grenelle, de Paris, e privilegia o clima tropical, com perfeita iluminação natural e fluxo de ar contínuo, de forma que não se sente, no interior, o calor que assola a praça. É majestoso em formas, dimensões, disposição do casario e impressionantemente rico em detalhes. No perfeito emaranhado de hastes de ferro a sustentar os telhados, nas venezianas e telhas inglesas, um encaixe perfeito. Os portões, as casas administrativas, os telhados, o conjunto da obra, tudo impõe uma contemplação estonteante.
O São José tem um parente na cidade que em muito se assemelha em arquitetura, força e tradição: o Mercado da Casa Amarela, situado na zona norte. Ali o convívio costumeiramente causa polêmicas pela acomodação e retirada de ambulantes e feirantes avulsos ao pátio da feira e aos anexos do mercado que foram gradativamente erguidos para acomodar os informais. A estrutura tem dimensões reduzidas se comparada ao São José. Foi originalmente erguido no início do século 20 na Avenida Caxangá, região então predominantemente rural, e em 1928 desmontado e transferido para a zona norte. Nos arredores do mercado, comprava-se tudo para o lar. Ainda hoje é assim, mas as alternativas são outras. Os carros pedem passagem, os pedestres pedem calçadas e três anexos foram construídos. O primeiro – já dissonante da arquitetura do mercado – fica em sua parte posterior.

Galhadas
“Se não for corno seja bem-vindo, se for toque o sino.” O convite é estampado na coluna de um bar no Mercado da Madalena. De fato, um sino e um badalo com corda estão ali para anunciar a presença dos chegados. Trata-se da Confraria dos Chifrudos é iniciativa de uma missão da Superintendência de Polícia Federal em Pernambuco. Há 20 anos, um grupo de sete policiais ia ao mercado tomar café da manhã, pontualmente às 7 horas. Passavam a semana fora de casa e só viam as esposas nos fins de semana. Disso nasceu o bochicho de que para ser desse meio só mesmo um marido traído. E assim nasceu a confraria que exalta a galhada como uma faceta humana, social e cultural. E, sobretudo, a galhofa. Há carteira de sócio, eleição de chifrudo do ano e, entre os frequentadores, repentistas, forrozeiros, aboiadores, cordelistas e gente que gosta dessa cultura em um ambiente de... bar familiar. Entre os famosos, recebeu durante anos o rei do brega, o cantor Reginaldo Rossi – “Garçom, aqui, nesta mesa de bar / você já cansou de escutar/ centenas de casos de amor...” – , que costumava brindar seu aniversário com os confrades.
O bar, onde ainda hoje se serve o café da manhã e tira-gosto regional, combina com o Box Sertanejo, logo ao lado, que recria uma casa sertaneja de Serra Talhada nos produtos e costumes. Esqueça o cartão de crédito e abra uma conta na caderneta. Lá ficam anotados seus dados, contatos e movimentação de compras. Pelo caminho, escolha um livro de poesia ou de crônicas, talvez uma biografia, um cordel ou um CD, DVD de um cantor preferido. Leia e ouça. Há um ótimo acervo. “O mercado é um lugar inspirado em coisas e encontros do sertão. É a nossa filosofia”, expõe a serra-talhadense Neurides Ferraz Nelcita.





Fonte: FC edição 951- março 2015
Postado por: Família Cristã




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