Um olhar que viu

Data de publicação: 06/06/2019

Por, Viviani Moura, fsp

Nascida na Rússia, em 18 de março de 1919, veio com seus pais e irmãos no ano de 1929 para o Brasil, fugindo das guerras civis que assolavam a União Soviética. A partir daí, começou a escrever na cidade de São Paulo (SP) a sua própria história.
Desde pequena, a leitura fazia parte do seu dia a dia e, com quatro anos, sabia ler e escrever. O fato de presenciar seu pai e seu avô sempre com um livro na mão foi determinante para despertar em seu interior a paixão pelas palavras. Paixão essa que a levou, na infância, a falar letão, russo, alemão e iídiche. Mais tarde, aprenderia o inglês e o português. Aos dezoito anos, começou a trabalhar como secretária bilíngue.
União na vida e no trabalho – Aos vinte anos, em 1939, ingressou no curso de Filosofia da Faculdade São Bento, em São Paulo (SP), mas não chegou a concluí-lo. No ano seguinte, em 1940, casou com o médico, psiquiatra e educador Julio Gouveia, com quem viveu mais de cinquenta anos, tendo como fruto desse relacionamento dois filhos, netos e bisnetos. Alguns meses depois do casamento, seu pai Aron Jacob Belinky, lembrado por ela como primeiro maior amor da sua vida, morre em um acidente aéreo. Foi um grande sofrimento. Precisou assumir durante seis anos os negócios, atuando como representante de celulose em fábricas de papel, até que se restabelecessem as condições econômicas da família.
Junto com o marido, que também era homem das letras, poeta e escritor ligado a teatro e televisão, começou a fazer teatro para crianças, baseado em literatura infantojuvenil (nacional e internacional). A partir do ano de 1948, atuou como autora e adaptadora dos textos por ele dirigidos e apresentados.
Legado nos meios de comunicação – A parceria do casal os levou a montar um grupo teatral, o Teatro Escola de São Paulo (TESP), e, com o início da televisão no Brasil, foram convidados para se apresentar na TV Tupi, onde realizaram apresentações de teleteatro ao vivo, entre os anos de 1951 a 1964. Vale lembrar que é de sua autoria a adaptação do Sítio do Picapau Amarelo para a TV. Além destes, destacou-se também na época o Teatro da Juventude, com espetáculos completos, de uma a uma hora e meia de duração, transmitidos todos os domingos.
Na década de 1970, Tatiana inicia-se, na imprensa, como escritora de artigos, crônicas e crítica literária para grandes jornais, e, em seguida, na década de 1980, desponta como escritora de livros infantis, chegando a publicar mais de 270 livros infantojuvenis pelas principais editoras do país.
Suas publicações receberam, como reconhecimento, vários prêmios literários, pois seus escritos foram reflexo de sua sensibilidade e capacidade de ler o mundo. Em 1989, ganhou o Prêmio Jabuti, o mais conceituado no campo literário. Divertia-se brincando com as palavras e capturava do cotidiano a inspiração para as suas criações, sendo considerada uma das principais autoras de livros infantojuvenis do Brasil, influenciando com os seus escritos a vida de muitas gerações de brasileiros.
Fertilidade literária – A bisneta Luciana Belinky, ao lembrar a bisavó, recorda: “Foram vinte e três anos de convivência com Tião (assim a chamávamos), mas, sem dúvida, a lembrança mais terna é da minha chegada para visitá-la. Ela estava sempre na sua poltrona com algum livro na mão ou escrevendo versinhos, limeriques. Levantava os olhos, abria um sorrisão e dizia: ‘Mas que bons ventos a trazem!’, e eu respondia: ‘Ventos de saudade’”, relembra. Além disso, lembra que nas reuniões de família não contava muitas histórias, gostava mesmo era de conversar sobre tudo. “Acho que realmente a maior ‘mágica’ saía da cabeça para as mãozinhas e direto para o papel”, conta Luciana.
De acordo com a bisneta, ela via além e possuía uma percepção extremamente aguçada para o que estava além dos olhos, e acredita que daí saía suas inspirações para os livros. Além disso, diz: “Tião tinha um humor ímpar, e era extremamente generosa: cuidou da família toda com mãos fortes, sempre atenta aos acontecimentos com todos a sua volta. Sem dúvida, Tião será um espelho para o resto da minha vida”, afirma a jovem.
Preço das ideias – O sobrinho Aron Belinky conviveu com a tia por mais de cinquenta anos e, dentre as muitas lembranças que guarda, destaca algumas características da escritora: “Tatiana sempre foi uma pessoa muito ciente da sua própria independência, da sua capacidade de pensar, e não se curvava muito a convenções... de maneira nenhuma era submissa, se acomodava ou se conformava, no sentido de adotar alguma atitude que se esperasse dela”, ressalta.
Essa autenticidade a levou a ter senso crítico e a desenvolver as próprias ideias, de maneira a estar aberta a críticas e a saber argumentar de maneira firme. “Como ela mesma dizia, tinha uma língua afiada e veloz e, às vezes, precisava realmente tomar cuidado, para que não dissesse antes aquilo que ela nem sequer tinha pensado ainda”, enfatiza o sobrinho.
Juntamente com os sucessos provindos do seu trabalho, Tatiana viveu momentos difíceis em seu percurso, sendo um deles durante a ditadura militar no Brasil. Ela vivenciou a experiência de ser intimada, ao ter sua biblioteca examinada e escrutinada por agentes de segurança. Além disso, há lembrança dolorida do filho André, jovem idealista que, ao ser perseguido, foi obrigado a se autoexilar na França e que lá, em um acidente de motocicleta, morreu, aos vinte e poucos anos. “Falar de um filho perdido é quase impossível. E, no entanto, por mais doloroso que seja, ele está neste álbum da antiga menina doendo todos os dias”, ressalta a autora em seu livro Lembranças de menina: momentos marcantes, escrito pouco antes de falecer.
Apesar desses capítulos sombrios que se apresentaram espontaneamente na narrativa da sua própria vida, não se tornou uma pessoa ressentida. Ao contrário, seu sobrinho destaca a alegria e a positividade da tia.
Um centenário de memórias – Ao falar do significado da comemoração do centenário de Tatiana Belinky celebrado neste ano, o sobrinho revela a referência que a escritora representa para a família. “Ela é uma inspiração para todos nós e é um orgulho ter uma pessoa assim, que tanto contribuiu para a cultura no Brasil e em outros países”, destaca Aron.
Recorda que, quando era adolescente, começou a escrever poemas e que chegou a mostrar para a tia. “Levei para ela ler, criticar, sugerir. Fez várias críticas sobre coisas que eu precisaria melhorar, mas também fiquei muito orgulhoso quando elogiou alguns de meus versos. Era uma pessoa com quem a gente podia conversar, trocar ideias e que estava inspirada o tempo todo nas palavras, nas conversas e na língua”, recorda Aron.
A trajetória da autora foi sinônimo de diversos prêmios e homenagens. Em 2008, recebeu a Ordem do Mérito Cultural, pelo MEC, e, em 2010, foi eleita membro da Academia Paulista de Letras.
Faleceu no dia 15 de junho de 2013, com 94 anos de idade. Segundo a bisneta, sua memória está viva e celebrar o centenário significa lembrar honrosamente tudo o que ela representou e representa para o nosso país e nossa cultura.
Linha do tempo
1919 – Tatiana nasce na Rússia no dia 18 de março
1929 – Chega ao Brasil com 10 anos de idade
1940 – Casa com o médico e educador Júlio Gouveia
1948 – Começa a trabalhar com o marido em adaptações, traduções e criações de peças infantis
1949 a 1951 – Cria o grupo Teatro Escola de São Paulo (TESP), que se apresenta na TV Tupi, com teleteatro ao vivo
1952 a 1964 – Adapta para a televisão a obra Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato
1965 a 1972 – Após deixar a TV, cria e edita a revista Teatro da Juventude
1978 – Escreve críticas literárias para os principais jornais do país
Década de 1980 – Publica livros infantojuvenis
1989 – Recebe os Prêmios Jabuti e Monteiro Lobato, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ)
2010 – Eleita como membro da Academia Paulista de Letras
2013 –No dia 15 de junho de 2013, morre em São Paulo, aos 94 anos de idade




Fonte: Revista Família Cristã, edição 1002, Junho de 2019
Postado por: Família Cristã




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