Jovens nem-nem

Data de publicação: 20/09/2019

Por, Nathan Xavier                              
Jovens nem-nem
Pesquisas mostram que os jovens que nem estudam nem trabalham são frutos das dificuldades sociais e educacionais do Brasil, que acaba por perder potenciais talentos
Jovens na faixa etária dos 15 a 29 anos que nem trabalham nem estudam. Você conhece alguém assim? É possível que a resposta seja afirmativa. Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que 23% dos jovens brasileiros não trabalham nem estudam. São os chamados jovens “nem-nem”. Em sua maioria, são mulheres de baixa renda. O Brasil, infelizmente, detém um dos maiores percentuais de jovens nessa situação entre nove países da América Latina e do Caribe. A grande preocupação é que, embora vagarosamente, a taxa tem crescido em relação a anos anteriores. Em 2015, esse percentual foi de 22,5%, e em 2014 estava em 20%, em comparação com 2005, então com 19,7%.
Problema mundial – Vale ressaltar que esse é um dilema mundial, embora, no Brasil e na América Latina, a questão seja mais grave pelo número maior de jovens nessa condição. Especialistas avaliam que o impacto disso a médio e longo prazos, para as atividades econômicas do país, será enorme, pois esses jovens acabam ficando sem perspectivas, desanimados, com conhecimento profissional defasado e mais sujeitos a atividades ilícitas para se sustentar. E as razões para uma das maiores taxas de jovens nem-nem expõe também graves problemas estruturais no país, como deficiências no ensino público, ausência de políticas públicas, maternidade precoce e falta de postos de trabalho para essa faixa etária.
Roseli Bregantin Barbosa, doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná, conduziu uma profunda pesquisa sobre os jovens nem-nem. Ela defende em seu trabalho que, ao contrário do que possa parecer, esses jovens não são desocupados por que querem. “O que falta a esse jovem não é apenas emprego formal e ensino regular, mas toda uma estrutura socioeconômica, como alimentação, saúde, transporte, educação, segurança e emprego dignos.”
A autora do trabalho relata que há, inicialmente, uma falta de motivação pessoal para voltar aos estudos e ao trabalho. As jovens mães solteiras têm ainda o agravante da falta da presença do pai da criança, dificultando o retorno aos estudos, além das normas sociais que reforçam o seu papel de cuidadoras.
Um outro perfil de jovens nem-nem é daqueles que estão motivados e querem voltar a estudar ou trabalhar, mas não se veem aptos ou lhes faltam ferramentas para isso. “(Esses jovens) não conseguiram encarar suas aspirações como algo realista nem receberam informações sobre como realizá-las. A escola tampouco os apoiou”, relata Roseli. O terceiro e último grupo é o dos jovens que, embora se tenham esforçado, desistiram por causa de barreiras externas, como os desafios de conciliar emprego e estudo, recursos financeiros ou qualificação escassos, falta de transporte público seguro para se locomover entre uma atividade e outra e a crise econômica do país. Nessa categoria encontram-se também as mulheres casadas com filhos pequenos, que relatam sofrer preconceito por parte de possíveis empregadores.
Faltam oportunidades – A pesquisadora Roseli Barbosa rechaça o termo jovem nem-nem, avaliando que este é inadequado e que não reflete a realidade social desses jovens brasileiros. “O termo joga sobre o jovem um estigma de desinteressado e vadio, quando, na realidade, ele é vulnerável, vítima da pobreza estrutural e do abandono do estado.” E continua: “Ele não alcança a expectativa traçada pela sociedade sobre sua trajetória educacional e laboral, pois esta reflete um modelo de classe média que não condiz com as condições ofertadas ao jovem dos décimos mais pobres da população brasileira”. Segundo a pesquisadora, existe, sim, uma taxa de 8% de jovens que não estudam nem trabalham, porém, essa taxa é de menores de 15 anos que, por lei, não podem trabalhar, o que reflete na realidade um índice de evasão escolar.
As conclusões da pesquisa de Roseli Barbosa batem com os resultados do Ipea. Segundo estes dados, 31% dos jovens nem-nem estão procurando trabalho, principalmente os homens, e mais da metade, 64%, dedicam-se a trabalhos de cuidado doméstico e familiar, principalmente as mulheres. A pesquisadora do Ipea, Joana Costa, reforça as conclusões de Roseli Barbosa. “São jovens que têm acesso à educação de baixa qualidade e que, por isso, encontram dificuldade no mercado de trabalho. De fato, os gestores e as políticas públicas têm que olhar um pouco mais por eles”, alerta. Joana Costa ressalta a maior oferta de creches e a melhora e barateamento do transporte público, como ações que podem ser realizadas pelos poderes públicos a curto prazo e que podem reverter a situação de jovens nessas condições. Ainda segundo a pesquisa do Ipea, o setor privado também pode contribuir para melhorar as competências e a empregabilidade dos jovens, por meio da adesão a programas de jovens aprendizes e incentivo ao desenvolvimento das habilidades socioemocionais requeridas pelos empregadores, como autoconfiança, liderança e trabalho em equipe. De acordo com os dados do próprio Governo Federal, existe uma baixa adesão das empresas privadas ao programa Jovem Aprendiz.
Porém, de todos os problemas, o acesso à educação de qualidade ainda é a grande e principal barreira, apontam as pesquisas. Há ainda outra questão. Segundo o estudo do Ipea, os jovens não dispõem de informações suficientes sobre a remuneração que podem obter em cada nível de escolarização, o que poderia levá-los a tomar decisões erradas sobre o investimento em sua educação. Cerca de 40% dos jovens não são capazes de executar cálculos matemáticos muito simples e úteis para o seu dia a dia e muitos carecem de habilidades técnicas para o novo mercado do trabalho.
Valorização – A cientista social alemã Miriam Müller conduziu uma pesquisa para o Banco Mundial, onde realizou 77 entrevistas qualitativas (mais aprofundadas) com jovens pernambucanos de 18 a 25 anos, moradores tanto de zonas urbanas quanto de zonas rurais. Os dados a que chegaram, embora com ligeira variação nos números percentuais, possuem a mesma equivalência das pesquisas do Ipea e do estudo de Roseli Barbosa. Miriam Müller alerta que é possivelmente insuficiente aumentar a oferta de cursos técnicos com o objetivo de viabilizar a participação dos jovens no mercado de trabalho, se isso não estiver associado a outras intervenções. “É preciso facilitar o acesso a informações sobre oportunidades, mostrando ao jovem como estas oportunidades podem concretamente mudar suas vidas. Aos jovens que não sentem que as oportunidades existentes são para eles, é preciso mostrar o contrário. Demonstrar a eles que são e que podem ser aptos àquela função.
Finalmente, oferecer programas de apoio que ajudem esses jovens a lidar com as dificuldades que surgirão. Infelizmente, muitos, devido às condições sociais e educacionais, não podem garantir, no próprio lar, uma base que lhes dê o apoio necessário para enfrentar os percalços que passarão e que fazem parte do mercado de trabalho.”
Todas as pesquisas apontam para o mesmo caminho: é necessário cuidar da força jovem do país, para que esse jovem possa fazer a diferença e para que o Brasil não continue a desperdiçar grandes e potenciais talentos.





Fonte: Revista Família Cristã, edição 1001, maio de 2019
Postado por: Família Cristã




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