Certas coisas

Data de publicação: 23/02/2015

A arte e a espiritualidade não se restringem ao que pode ser traduzido em conceitos universais e precisos, ao que possui sentido único e delimitado...



Por Clovis Salgado Gontigio
Arte Sergio Ricciuto Conte

Na bela canção Certas coisas, de Lulu Santos e Nelson Motta, é sintetizada a insuficiência das palavras humanas diante de experiências que em muito as excedem. Dentre as “coisas” inexprimíveis, que parecem ser traduzidas de modo mais apropriado pelo silêncio, a canção nos apresenta o amor e a música. Poderíamos dizer que toda a experiência estética nos faz constatar o limite da linguagem, algo que se repete na experiência de intimidade com Deus. É ao componente inefável, descoberto tanto na arte quanto na espiritualidade, a que se dedica este artigo.

A mística − Para muitos, soa como absurdo contrassenso abordar o que, por definição, “não tem letras”, utilizando a expressão de Santa Teresa de Ávila. Mas, se “tem certas coisas que eu não sei dizer e digo”, é porque elas não necessariamente bloqueiam o discurso verbal. O filósofo francês Vladimir Jankélévitch (1903-1985) esclarece que os temas inefáveis não cabem no discurso por estarem “acima” dele, por transbordá-lo. Deste modo, permitiriam infinitas aproximações verbais. Como em Certas coisas, o filósofo destaca a inefabilidade do amor, tema máximo da poesia, sentimento que, embora nunca possa ser inteiramente capturado, será eternamente cantado, revelando-se a cada momento sob nova roupagem.
A mesma dinâmica se aplica a Deus. Sua Sabedoria se revela no texto sagrado, que também é fonte inesgotável de inspirações e interpretações. E sua natureza é, para nós, obscura por seu excesso de luminosidade, que refrata em múltiplos nomes e atributos sua unidade, como verificamos em Dionísio Areopagita e também na religião islâmica.
Se o Absoluto, como o Sumo Inefável, “ultrapassa todo o poder da linguagem humana” (São João Crisóstomo) por sua extrema fecundidade, também a experiência de aproximação a Ele se revela ao místico como transbordante. Portanto, os frascos das palavras, capazes de conter um volume limitado de significados, não poderiam comportar o excesso experimentado pelo místico.
Estes elementos se evidenciam nos textos de São João da Cruz, tanto em seus poemas quanto em suas “declarações” em prosa. No Cântico espiritual, o inefável aparece numa de suas mais consagradas fórmulas, o “não-sei-quê” (no-sé-qué), que nesse contexto se refere a uma tentativa, por parte das criaturas, de expressar algo sobre o Amado, a pedido do eu lírico. Diante da profusão das graças divinas, há sempre a possibilidade de dizer algo mais sobre Deus. No entanto, se somássemos todos os elogios a Ele, inevitavelmente nos depararíamos com “um ‘não-sei-quê’ que se sente restar por dizer” (canção 7, § 8). O “não-sei-quê” é o “resto”, o que nunca será contido em nossos frascos mentais e linguísticos. Se não reconhecemos que “cada voz que canta o amor não diz tudo o que quer dizer”, corremos o risco de identificar e reduzir, ao que as palavras podem nos dizer, os conteúdos inefáveis. Esta preocupação é claramente expressa por São João da Cruz em outra de suas obras, a Chamar viva de amor. Nela, o poeta carmelita confessa que preferiria não falar sobre a extrema delicadeza do toque divino sobre a alma, “para que não se entenda que aquilo não é mais do que se diz” (canção 2, verso 4, § 21).
Por que então os místicos ainda insistem em expressar o que sempre se mostrará insuficiente quando aproximado pela linguagem? Primeiramente, não poderíamos permanecer mudos diante da mais alta experiência reservada ao ser humano. A efetividade e a intensidade do contato místico exigem a produção de algum tipo de mensagem, nem que esta seja um mero balbucio, imagem empregada no Cântico espiritual. Como crianças, infantis diante do inefável, padecemos da urgente necessidade de escoar e comunicar o que sentimos. Este modo de comunicação – e aí chegamos à segunda resposta – é limitado, mas nem por isso inútil. Embora não transmita exatamente o que foi vivido ou intuído, é ainda capaz de nos fornecer algumas pistas capazes de evocá-lo e sugeri-lo.

A experiência estética − Ao mencionarmos o verbo sentir, tocamos um dos principais pontos relacionados à inefabilidade. As sensações, como o gozo místico ou estético, são de natureza subjetiva. E dificilmente somos capazes de colocar em palavras uma experiência que é só nossa, única, insubstituível. A linguagem verbal, ao plasmar conceitos que possam ser aplicados a diversas circunstâncias, revela sua imprecisão nos momentos em que cada um de nós tenta traduzir a qualidade de uma sensação particular.
É assim que o “não-sei-quê” se manifesta não só no que a alma “tão altamente sente”, mas também em algumas percepções sensíveis bastante simples. Como podemos expressar o matiz exato dos “verdes mares” da Praia de Iracema ou definir o que há de único nas cores suaves que compõem as telas de Chagall? Como podemos comunicar, a quem nunca o sentiu, o perfume da dama-da-noite? Somos capazes de transmitir com palavras o sabor da resina que confere requintado toque ao manjar libanês?  E a sonoridade incomparável do nosso instrumentista predileto: se sabemos reconhecê-la, sabemos descrevê-la? O máximo que podemos fazer, como também faz o místico, é construir analogias, que provavelmente surpreendem quem não está com elas familiarizado. Falar sobre as notas de madeira que ressoam de um perfume é tão impalpável quanto falar sobre as inflamações da alma ou da escuridão luminosa...
Entretanto, no campo da apreciação artística, a presença do inexprimível não se restringe à pura sensação. Não sabemos dizer, apontar, localizar o que em uma obra nos comove. Impossibilidade que, como aquela verificada na mística, também resulta de um transbordamento simultâneo ao entendimento e à linguagem, seja por parte do nosso sentir, seja por parte da obra, cujo teor de mistério sempre suscita novas sensações e interpretações.
Em razão da fecundidade do tema aqui abordado, voltarei a ele no próximo artigo. Mas, por ora, seria pertinente concluir que, ao nos colocarem no território do inefável, “certas coisas” como a arte e a espiritualidade nos despertam para a amplidão da experiência humana, cujo repertório não se restringe ao que pode ser traduzido em conceitos universais e precisos, ao que possui sentido único e delimitado.

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Fonte: FC ediçao 948
Postado por: Família Cristã




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