Sabedoria como herança

Data de publicação: 16/11/2017

Por César Vicente

Nem todos os jovens gostam de ouvir conselhos dos mais velhos. Uma pena, pois isso muitas vezes é o melhor que estes podem deixar...

Envelhecer é inevitável para quem deseja uma vida longa. E, se há vantagens em acumular tempo neste mundo, uma delas é ganhar experiência. A outra, sabedoria. A primeira, porém, pode ser de limitada serventia, pois algumas decisões importantes da vida são tomadas ainda na juventude ou, no mais tardar, no início da vida adulta, e, ironicamente, quase nunca tendo como base uma vivência pessoal própria. O que autoriza a comparar a experiência com os faróis acesos postos nos para-lamas traseiros de um carro: de que servem se ele roda em frente? Para, de vez em quando, olhar para trás e ver, ao longe, as oportunidades que passaram.
Mas, vista por outra perspectiva, essa luz pode iluminar o caminho de quem vem lá atrás, os mais jovens, e se transformar em orientações que, quando aprendidas, brilham no escuro. É a chamada sabedoria. Por causa dela vale muito a pena chegar à maturidade com a percepção de que as lições aprendidas, caso não tenham chegado no tempo certo para quem as viveu, servirão para quem um dia as viverá. E assim caminha a humanidade. Ou deveria ao menos. Porque, nas sociedades ocidentais, a modernidade atropela a tradição, e a sabedoria dos idosos é subaproveitada.
Bem diferente ocorre em outros meios. “Quando morre um africano idoso é como se queimasse uma biblioteca”, compara o poeta malinês Amadou Hampâté Bâ, ao sintetizar o valor dos mais vividos nas sociedades onde ainda se preza a tradição. Nelas, os idosos transmitem oralmente aos jovens a memória do povo e uma sabedoria acumulada em décadas de vida. Entre nós, menos. Em certa altura da era tecnológica na qual vivemos, os jovens passaram a ver nos idosos uma gente com pouco a ensinar. Afinal, eles não sabem – ou não sabiam – navegar na internet, não tinham conta no Facebook e viviam na exclusão digital. Após, no entanto, uma adaptação às novidades, assistimos a uma restauração de valores. Hoje já há ciência – em alguns, pelo menos – que a experiência acumulada em uma vida vai além da tecnologia,que, na verdade, não responde a nenhuma dúvida existencial.

Idade da razão – O melhor momento de transmitir a sabedoria é mesmo na idade mais madura, segundo o neuropsicólogo Elkhonon Goldberg, professor de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova York (Estados Unidos) e autor de O Paradoxo da Sabedoria (Publicações Europa-América). Isso porque é apenas nesse estágio da vida que a sabedoria, uma forma de processamento mental muito avançada nas palavras do cientista, atinge seu auge. “Sabedoria é a capacidade de saber a solução de um problema complicado ou inesperado de maneira praticamente instantânea e sem esforço mental”, conceitua Goldberg, para quem o cérebro dos mais velhos, apesar de certas perdas cognitivas, pode tomar decisões em níveis mais intuitivos. “A velhice, sempre vista como uma época de declínio, pode trazer novas habilidades muito poderosas”, confirma. Uma delas, segundo o pesquisador, é a capacidade de conseguir antecipar eventos que costumam pegar as outras pessoas desprevenidas.
Evidentemente, não basta apenas envelhecer para se tornar sábio. De acordo com o neuropsicólogo, é preciso também acumular experiências, ter uma abrangente biblioteca de padrões e construir uma mente analítica. A combinação desses três pré-requisitos formaria o que ele chama de circuitos atratores no cérebro humano. A sabedoria, então, seria um desdobramento de uma extensa rede desses circuitos. Quanto mais circuitos, mais sabedoria. Como esses, no entanto, levam tempo para ser construídos, um ser humano disporia de uma razoável rede de circuitos apenas na vida madura. “Por causa disso, o envelhecimento acaba sendo o preço da sabedoria”, resume Goldberg, para quem, somando perdas e ganhos, a conquista da sabedoria na vida madura é uma compensação pelo declínio do poder de processar novas informações enfrentado pelo ser humano durante seu processo de envelhecimento. “Perdemos essa capacidade, é fato. Em contrapartida, a maioria dos problemas que surgem pode ser resolvida com base na comparação com os padrões que foram acumulados”, conclui.

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Os bons exemplos
Resultado da soma entre intuição e experiência, a capacidade de realizar projetos e deixar ensinamentos não pode ser subestimada entre a população madura. Na biografia Michelangelo, Uma Vida Épica (Editora Cosac Naify), por exemplo, o pesquisador inglês Martin Gayford conta que o escultor, pintor e arquiteto Michelangelo Buonarroti, entre os séculos 15 e 16, se manteve criativo após os 80 anos, quando, entre outras obras, projetou a cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano, onde atuava como arquiteto-chefe, e uma capela na Basílica de Santa Maria Maior, uma das quatro maiores da capital italiana. Outro exemplo cabe ao arquiteto catalão Antoni Gaudí, autor de, entre outros projetos, o Templo da Sagrada Família, obra arquitetônica mais visitada da Espanha. Gaudí, cujo processo de beatificação tramita no Vaticano, manteve-se ativo até morrer atropelado aos 73 anos, em 1926.
Entre os brasileiros também há casos de personalidades que se dedicaram a construir ou consolidar uma obra na reta final de suas vidas, deixando aos mais jovens exemplos de talento e de dedicação ao trabalho. Podem ser lembrados a artista plástica Tomie Ohtake e o arquiteto Oscar Niemeyer, falecidos, respectivamente, aos 101 e 104 anos, e que, com suas obras e ensinamentos se mantiveram ativos até, praticamente, às vésperas da morte. Mas o mais clássico e impressionante modelo de demonstração de sabedoria na maturidade fica mesmo com o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, que viveu entre os séculos 18 e 19 e aos 83 anos concluiu seu poema trágico Fausto, obra-prima da literatura mundial e que serve até hoje como referência não apenas para a cultura alemã, como para toda a humanidade.





Fonte: FC edição 959- novembro 2015
Postado por: Família Cristã




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