Hora do pesadelo

Data de publicação: 11/04/2019

Por, Nathan Xavier
Pesadelos são ruins em qualquer idade, mas os pais ficam mais angustiados quando são seus filhos que têm essa experiência. Saiba como lidar com isso.
Qual pai ou mãe já não teve que lidar com um susto no meio da madrugada, sendo acordado pelo filho gritando? Dependendo da idade, os pesadelos infantis são comuns. Há muitos fatores que podem gerar um sonho ruim, e podem estar associados a algo que a criança esteja passando na vida escolar ou familiar. Por isso, é importante ficar atento à causa do pesadelo e como a criança reagirá nos dias subsequentes.
Sonhos – Mas, afinal, para que servem os sonhos? Infelizmente, é uma pergunta que a ciência ainda não conseguiu responder com precisão. A tradição judaico-cristã atribui um papel importante a eles. No Antigo Testamento, Jacó, José e Daniel receberam de Deus a habilidade de interpretar os sonhos. É bem conhecida a história de São José, avisado em sonho, pelo anjo Gabriel, de que sua esposa, Maria, trazia no ventre Jesus. Também depois da visita dos Reis Magos, um anjo em sonho avisa novamente São José para fugir para o Egito. Há muitos santos que também tiveram grandes revelações durante os sonhos. A própria ciência sabe que muitas de suas descobertas se deveram a sonhos que grandes cientistas tiveram. René Descartes sonhou com um novo sistema matemático. Kekulé propôs a fórmula do benzeno após sonhar com uma cobra que mordia sua própria cauda.
O pai da psicanálise, Sigmund Freud, em sua polêmica e importante obra Interpretação dos sonhos, caracteriza-os como a realização de um desejo. Todo sonho teria uma interpretação, segundo a própria vida do paciente. Assim, sonhar que está voando, por exemplo, não tem sempre o mesmo significado, mas varia, conforme a interpretação que o próprio autor do sonho dá. Neurocientistas, porém, defendem que sonhos são apenas imagens aleatórias produzidas pelo cérebro, a partir de eventos que nos acontecem, sem significado algum.
Não sabemos por que sonhamos, mas se há algo com que todos os cientistas concordam, é que os sonhos são um retrato do nosso dia a dia. Em entrevista à BBC News, William Domhoff, professor pesquisador de Psicologia e Sociologia na Universidade da Califórnia (EUA), afirma que os sonhos nada mais são que um produto de nossas vidas. “Se eu tivesse acesso a cinquenta sonhos seus, teria uma boa ideia das suas preocupações, dos seus interesses, de quem você gosta ou não. Nesse sentido, eles não são sandices aleatórias, são retratos psicológicos, pegadas digitais da sua mente”, ensina o pesquisador. Logo, o pesadelo do seu filho pode indicar algo mais profundo, como bullying, dificuldade escolar, um novo irmão chegando ou um problema familiar.
Ismênia Ribeiro de Faria é pedagoga há 27 anos e explica: “A criança vai reproduzir aquilo que vê no dia a dia. Os próprios pais podem influenciar (o pesadelo), quando as deixam assistir à filme de terror com eles, por exemplo. Pode também acontecer de ela ter um pesadelo por conta de uma discussão ou problema familiar. Os pais acham que a criança não entende, mas ela elabora aquilo de outra forma, através do pesadelo”.
Fases do sono – Por volta dos três anos de idade, a criança já pode apresentar episódios de pesadelo, já que a partir dessa fase ela já tem um bom nível de maturação do sistema nervoso central (parte do cérebro responsável por receber e processar informações). Além disso, as fases pré-escolar e escolar introduzem novas experiências que estimulam a criatividade e a imaginação.
Em crianças ou adultos, os sonhos – e pesadelos – ocorrem na fase chamada pelos médicos de REM. É uma sigla em inglês e quer dizer Rapid Eye Movement (ou “movimento rápido dos olhos”, em tradução livre). Durante essa fase, os olhos movem-se rapidamente e a atividade cerebral é parecida com aquela que se passa nas horas em que se está acordado. O interessante é que, durante o sono REM, o cérebro bloqueia os neurônios motores, ou seja, você fica incapaz de se mover, exatamente para que o corpo não obedeça às ordens sonhadas ou as encene, o que poderia causar um acidente. Normalmente uma pessoa tem cerca de quatro ou cinco períodos de REM durante o sono, que duram de 90 a 120 minutos no total em adultos. Em crianças esse período costuma ser maior.
Como ajudar – Segundo a Associação Brasileira do Sono, de 20% a 30% das crianças entre cinco e doze anos têm um pesadelo a cada seis meses, mas a frequência varia de um indivíduo para o outro. A pedagoga Ismênia relata que os pesadelos podem ser mais frequentes entre os nove e onze anos e que a estratégia para lidar com eles é um pouco diferente. “Quando ela é menor (abaixo dos oito anos), é mais fácil lidar com o pesadelo através do lúdico, do encanto, e isso ajuda muito. Se ela se assustou com um monstro no armário, acenda a luz e mostre que são apenas as roupas dela e que está segura em casa. Colocar um brinquedo que ela goste como ‘protetor’ ao lado dela ajuda.” Ismênia alerta que é preciso uma fala calma, sempre com muito carinho, sem assustar mais a criança e sem menosprezar o medo que ela tem. Quando são um pouco maiores, não é preciso usar o lado lúdico, mas a forma de tratar o pesadelo (com calma e sem menosprezo) vale para elas também. “Quando chega aos nove anos mais ou menos, a criança começa a demonstrar preocupação com coisas que não são pertinentes a ela, como problemas de casa ou mesmo algo do noticiário. E nessa idade é comum que apresentem esses medos na forma de pesadelos. Elas percebem que estão crescendo, entrando no mundo dos adultos, e é natural que esses medos venham; a criança se sente um pouco só.” A estratégia em qualquer idade é a mesma: mostrar que os pais estão próximos e que estarão ali sempre que precisar, mesmo que seja apenas para um abraço. “Às vezes, os pais querem ajudar tanto que acabam forçando a criança a falar mais, a contar em detalhes o que aconteceu. Contar pode fazer a criança colocar para fora, mas é ela que deve falar, e do jeito dela. Não se deve pedir para a criança se lembrar a toda hora do pesadelo.”
Os pesadelos, em qualquer idade, passam normalmente sem ocasionar qualquer problema psicológico futuro, mas podem servir de alerta, caso se tornem muito frequentes. Pesquisa da Universidade de Warwick, no Reino Unido, indicou que crianças de oito a dez anos, que sofrem bullying, são mais propensas a ter pesadelos e outros problemas relacionados ao sono. Como os sonhos servem para o inconsciente dar vazão aos medos, inseguranças, angústias e situações de conflito do dia a dia, como mencionado, o pesadelo ajuda como um sinal de alerta. “O pesadelo se torna preocupação quando isso vai ser reproduzido em outros momentos”, ensina Ismênia, “se ela não está brincando mais, não está mais falante, ou seja, se alguma característica dela mudou. Tanto os professores quanto os pais devem ficar atentos a esses sinais. Se isso persistir, é bom buscar ajuda de um profissional”. 

Incentive sonhos bons
Para ajudar as crianças a relaxarem, quando é hora de dormir, é bom ficar atento a essas dicas (que, aliás, também servem aos adultos):
– horários: ter hora de dormir e despertar, regularmente;
– nada de estímulos ruins: evite filmes de terror, programas de TV ou histórias que já desencadearam pesadelos antes;
– rotina de sono: ao chegar próximo da hora de dormir, vá diminuindo as luzes da casa, desligue TV, celulares e tablets. Um banho, um abraço nos pais, uma leitura ou conversa tranquila sobre acontecimentos agradáveis do dia também ajudam.





Fonte: Revista Família Cristã, edição 998, fevereiro de 2019
Postado por: Família Cristã




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