Fotografar em favor da vida

Data de publicação: 30/08/2019

Por Roseane Welter
Fotos Noilton Pereira

Fotografar em favor da vida
Pequenos gestos podem transformar a realidade de pessoas em situação de pobreza. Através de suas fotografias, Noilton vem contribuindo para melhorar a vida de famílias no sertão da Bahia
A pobreza é uma ferida que faz parte da realidade brasileira e se espalha pelo mundo. Por mais de uma década, houve um declínio nos índices da pobreza, mas os números voltaram a crescer significativamente, influenciados por diversos fatores. Dentre os destacados, estão a forte recessão econômico-política que o país enfrenta, a alta taxa de desemprego, a corrupção, o corte nos investimentos federais destinados às classes mais pobres, entre outros fatores.
De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2014 o total de brasileiros que viviam na pobreza era de 36,2 milhões. Os números voltaram a crescer em 2016 e, segundo dados divulgados recentemente, em apenas um ano, o Brasil passou a ter quase 2 milhões de pessoas a mais vivendo em situação de pobreza. No ano de 2016, o número era de 52,8 milhões de pessoas imersas na pobreza. No ano seguinte, o número continuou aumentando e chegou a 54,8 milhões, um crescimento de 4%. E os índices da população na condição de pobreza extrema também aumentaram de 13,5 milhões, em 2016, para 15,3 milhões em 2017.
Segundo o IBGE, é considerada em situação de extrema pobreza quem dispõe de apenas R$ 1,90 por dia ou o equivalente a R$ 140,00 por mês para viver. Já na linha de pobreza, é considerado quem tem rendimento inferior a R$ 5,5 por dia, ou o que corresponde a R$ 406,00 por mês.
Dos 54,8 milhões de pessoas em condições abaixo da linha de pobreza, mais de 25 milhões estão nos estados do Nordeste do país. No Sul do país, estão aproximadamente 3,8 milhões, no Sudeste 15,2 milhões de pessoas. A erradicação da pobreza é um dos temas centrais da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável. Para eliminar a pobreza extrema, segundo a pesquisa, o país deveria investir mensalmente cerca de 1,2 bilhão de reais. E, com o investimento de 10,2 bilhões mensais, a pobreza seria erradicada totalmente em nosso país. Enquanto os investimentos não acontecem em âmbito federal, existem, espalhadas pelos quatro cantos do Brasil, pessoas preocupadas com a causa social de tantos indivíduos que precisam de ajuda para obter o básico do dia a dia: alimento, moradia e dignidade. Gestos simples que transformam. Pessoas generosas que arregaçam as mangas e vão à luta para garantir melhores condições de vida a centenas de pessoas.
Flashes que transformam – Noilton Pereira de Lacerda, 47 anos, nasceu em Ruy Barbosa, cidade localizada na Chapada Diamantina, no sertão da Bahia, com aproximadamente trinta mil habitantes e distante 320 quilômetros de Salvador. Autodidata, radialista e fotógrafo. Conhece bem a realidade enfrentada por seu povo, o contexto sertanejo, a realidade de pobreza de muitas famílias espalhadas pelo sertão baiano. “Via a situação dos meus conterrâneos, mas não conseguia transmitir isso para quem vivia fora dessa realidade”, destaca o fotógrafo. O olhar apurado, a sensibilidade e o desejo de ajudar quem mais precisa despertaram em Noilton o voluntariado, como um gesto de mudar vidas e mostrar ao mundo a realidade do povo sofrido que fica à margem e sofre com o abandono social. A ideia de fotografar e divulgar essas fotos nasceu para resgatar as pessoas da fome, da miséria e para realizar os sonhos de quem não tem condições de fazer isso.
São cinco anos dedicados a fotografar o cotidiano do povo; ele nunca fez cursos de fotografia, mas tem como mestre inspirador o também renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e, diariamente, se dedica a transformar um flash em uma nova história, com o objetivo de ajudar o próximo. “Eu descobri que tinha um fotógrafo dentro de mim, depois de fotografar com o celular um pôr do sol”, destaca relembrando como tudo começou. A primeira foto foi com o celular, depois conseguiu uma máquina fotográfica semiprofissional e, em seguida, ganhou uma câmera profissional, ao participar de um programa de televisão. As famílias carentes, as pessoas idosas e a paisagem do sertão são o foco de suas fotografias. Com um olhar humano e sensível, Noilton consegue ir além de uma simples foto, ultrapassando o óbvio e captando sentimento, verdade e esperança em cada rosto ou paisagem clicada. Suas fotos mostram poesia: “na minha lente, tudo vira arte”.
Gestos concretos – “A fotografia me permitiu derrubar muitas barreiras e abrir novas fronteiras. Sinto que a minha inquietude começa a ganhar voz, espaço e destaque. Passei a registrar a vida dessa gente simples, que vive em casas de barro, de chão batido, sem recursos”, destaca o fotógrafo. Suas fotos, que retratam a vida da periferia da cidade onde mora, ganharam o mundo e o dinheiro da venda delas é revertido para as pessoas carentes da região em cestas básicas, material escolar, construção de casas novas, brinquedos, roupas, móveis, enfim, é revertido para as famílias.
Segundo ele, enquanto as fotos ganham o mundo através das internet, a verba recebida com a venda das mesmas gera esperança: “Cada foto vendida representa uma família carente que é alimentada; esse dinheiro é a nova esperança para quem necessita de uma moradia digna. A escolha dos beneficiados se dá a partir do grau de necessidade de cada família”, enfatiza o fotógrafo, que eterniza momentos, memórias e constrói uma nova história permeada por esperança e dignidade.
Lucas dos Santos Oliveira, 20 anos, foi fotografado por Noilton e, com o dinheiro da sua foto e da irmã Joceli, foi contemplado com uma casa nova: “Eu morava com meus pais e meus 10 irmãos em uma casa de taipa e, quando chovia, desmoronava e molhava tudo”, relembra o jovem que hoje mora na nova casa construída com a ajuda do projeto social de Noilton. “Hoje moro numa casa digna com minha família e sou muito feliz.”
Além de ajudar quem precisa, o fotógrafo também proporciona a reinserção no mercado de trabalho, oferecendo oportunidade. “Ganhei uma casa nova e mobiliada, um amigo e também a oportunidade de trabalhar. Ajudo o Noilton, como pedreiro, na construção das novas casas e, com o pagamento, consigo alimentar minha família”, destaca o jovem. Nilce dos Santos, mãe do Lucas e de mais 10 filhos, afirma: “Como mãe, sempre sonhava em dar aos meus 11 filhos um lugar digno para morar. Graças a esse coração generoso, consegui concretizar esse sonho e sou muito feliz. As dificuldades continuam, mas a esperança está renovada”, destaca emocionada a mãe.
A dimensão social do fotógrafo vai além do assistencialismo, visa proporcionar melhor qualidade de vida e, sobretudo, criar oportunidades de trabalho: “O intuito não é só a doação de uma moradia, mas promover a sustentabilidade e o conforto para que essas pessoas possam se autossustentar”, isso porque na casa, além da mobília, a família recebe um freezer para fazer geladinho e picolé e, também, um criatório de aves com 30 pintos e ração, para obter a partir daí uma fonte de renda. No total, Noilton e suas fotografias já beneficiaram cinco famílias com uma casa para cada, e muitas cestas básicas que são distribuídas semanal e mensalmente.
Evanildo Malheiro, 35 anos, pai de três filhos, é pedreiro e ajuda Noilton na missão de construir novas casas para quem precisa. “Estava em casa, quando ele chegou em sua moto. Precisava de pedreiro. E juntos já construímos cinco casas. Ele é uma pessoa do bem, sensível e que só quer ajudar quem precisa”, destaca o pedreiro. O meio de transporte de Noilton é a moto, e com ela vai a todos os cantos para entregar as doações angariadas através das fotos.
Sensibilidade e criatividade – “Não espere por grandes líderes; faça você mesmo, pessoa a pessoa. Seja leal às pequenas ações, porque é nelas que está a sua força”, escreveu Madre Teresa de Calcutá. A frase representa bem o gesto concreto de Noilton, que faz a diferença no cotidiano do povo. Suas fotos ultrapassaram as fronteiras do Brasil, e já estamparam a capa do livro Lé Brésil vu par les Brésiliens, ao vencer um concurso na França, entre concorrentes internacionais e nacionais.
Suas fotos emocionam a todos e impressionam pela sensibilidade e criatividade, como a foto da brincadeira das três crianças posicionadas no chão, em meio a dois pneus, simulando uma moto; a foto do Jocenilton Fagundes, conhecido por todos pelo apelido de Thuca, que chama a atenção de todos pela beleza de seus olhos azuis e o olhar fixo no horizonte, em sua casa de taipas; a foto do rosto sofrido e do sorriso de esperança de homens e mulheres idosos, que muito já viveram e sonharam em meio às intempéries do sertão seco, abundante e pobre. Tudo isso é retratado por Noilton de uma forma genuinamente profissional e sublime, que cativa, encanta e emociona.
O fotógrafo tem ainda um grande sonho: publicar um livro com suas fotos e continuar ajudando a quem precisa. “É muito gratificante saber que estou mobilizando e sensibilizando a sociedade com meus cliques e, com isso, ajudando a melhorar a condição de vida de tantas pessoas!”




Fonte: Revista Família Cristã, edição 1004, agosto de 2019
Postado por: Família Cristã




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