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A HORA DE LEVANTAR VOO

Data de publicação: 17/01/2017



Leitura Orante –  3º domingo do tempo comum, 22 de janeiro de 2017

A HORA DE LEVANTAR VOO

“Eles, deixando imediatamente as redes, o seguiram.” (Mt 4,20)


Texto Bíblico: Mateus 4,12-23



1 – O que diz o texto?
O texto do evangelho de hoje nos situa diante de um denominador comum que é a mudança. O próprio Jesus vive um momento de mudança radical: rompe com sua família, com seu ambiente, afasta-se da estrutura religiosa centrada na Lei e no Templo e opta por deslocar-se para a margem social e religiosa de seu tempo (Galiléia e terra de Zabulon). Sua mudança de vida desencadeia um processo de mudanças nas pessoas, de maneira especial no grupo dos primeiros seguidores.

O olhar e o chamado de Jesus ativam um movimento na vida dos primeiros discípulos: deixam seu estreito mar e seu rotineiro trabalho para fazer caminho com o Mestre.

Tudo começou às margens do mar da Galiléia...

Jesus caminha e, ao passar ao longo do mar, viu aqueles homens que estavam retornando da pesca e entra no espaço vital deles. Exatamente ali, naquela vida tão normal, acontece algo novo.

Jesus os chama do mar, os faz descer da barca e os convida a segui-Lo, para mergulhá-los no Seu mar, para fazê-los subir noutra barca, para atraí-los a uma vida diferente.

O seguimento só se realiza quando alguém se deixa conduzir para águas profundas num novo mar.

Partindo do lugar e das coisas que representam as esperanças, as dificuldades, as decepções, os sucessos, as derrotas daqueles homens pescadores, Jesus pronuncia sua Palavra mobilizadora: “Segui-me e farei de vós pescadores de homens”, ou seja, compartilhar Sua mesma missão, “pescar” o que há de mais humano e nobre nas pessoas, ajudá-las a viver com sentido, tirando-as do mar da desumanização.

E Jesus tem a capacidade de extrair o maior bem possível do outro, de garimpar a autêntica qualidade humana de cada um, sem necessidade de dar-lhe lições ou arrastá-lo com argumentos racionais.

“Eles deixaram as redes e o seguiram”: seguir Jesus é uma libertação. Na realidade, o que eles deixam não são só redes, mas tudo aquilo que aprisiona, enreda e que impede a vida ter uma dimensão maior.

Tocados pelo dinamismo de Sua voz e de sua Palavra, os pescadores se dão conta d’Aquele que estava passando: eles já tinham sido vistos, conhecidos, amados, escolhidos.


2 – O que o texto diz para mim?

Aquela Palavra que vibra forte, abre os olhos, a mente e o coração daqueles homens rudes do lago. Sentem-se chamados pelo nome, conseguem compreender melhor a si mesmos e redescobrem um sentido novo, um significado inimaginável para a própria existência. Eles descobrem o quão estreito era o seu mar cotidiano e entram no dinamismo da vida de Jesus, deslocando-se para o vasto oceano do Reino.

A experiência do encontro com a pessoa de Jesus, seu olhar compassivo e terno, a proposta ousada e desafiante que Ele me faz... despertam dinamismos profundos e desejos nobres em meu interior, sacodem minha rotina e ampliam meu atrofiado olhar.

Ao “fixar seu olhar” em mim, chamando-me pelo nome, serei movida a assumir opções mais radicais e integrais pelo Reino, segundo o modo de ser, de viver e de fazer do próprio Jesus.

São grandes os riscos de se viver em horizontes tão estreitos.

Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgente.

O próprio lugar se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.

Ampliar os espaços do coração implica agilidade, flexibilidade, criatividade, solidariedade e abertura às mudanças e às novas descobertas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Vivo um tempo caracterizado por constantes mudanças e pelo movimento. No entanto, de uma maneira dissimulada, percebo a presença de uma paralisia que perpassa minha condição humana. E paralisia é o que ocorre quando algo que deveria mover-se e fluir, não se movem, nem flui. Esse “algo” são processos, projetos, relações, aspirações, causas... E é essa mudança verdadeira que, quando não ocorre, me faz sentir estancada, angustiada e sem brilho, embora aparentemente as coisas parecem andar bem.

Uma pergunta que normalmente costuma protagonizar minhas conversações com amigos e parentes é: “por quê você vai mudar?”

Aumenta a curiosidade quando alguém que gosta muito do que está fazendo, sobretudo no campo profissional, decide mudar: “é verdade que você vai deixar? A gente percebia você tão feliz!”

Acontece que, às vezes, não há nada “mau” com o que estou fazendo, mas sem entender muito bem por quê, há algo dentro de mim que me impulsiona a sair, a ir além de mim mesma, a levantar novo voo.

Alguém poderia me perguntar: “Mas, se estava bem, para quê complicar-se ao começar algo novo?”.

A resposta nunca poderá ser totalmente racional.

Porque disso se trata: toda mudança me leva a desatar minha essência, isso que sou na verdade e que clama por sair.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Senhor, toda mudança implica sair de mim mesma, de meu estreito mundo, de minhas práticas arcaicas, daquilo que me protege e me esteriliza para que eu possa avançar  em direção às novas fronteiras do espaço sem limites, que me espera aberto e acolhedor.

Ser seguidora de Jesus, portanto, consiste em colocar-me nos seus “passos”, com suficiente visão da realidade para ir adiante, e com bastante disponibilidade para mudar de caminho quando o sopro do Espírito assim me sugerir.

É saudável questionar-se, abrir-se e aventurar-se a ver as coisas de maneira diferente e a responder às circunstâncias com espontaneidade nova.

Deus não me deu um espírito de timidez, de medo, de fuga, de acomodação... mas de audácia, de criatividade, de luta, de participação... Movidos por sua força, vejo a possibilidade de questionar toda minha atitude conformista, sacudir minhas convicções, ampliar meus horizontes e animar minha vida.

No fundo do meu coração cheio de velhas barcas, redes inúteis, mar estreito... é aí que o Senhor passa... e com sua Palavra provocante me acorda para uma ousadia maior. Dar-lhe acolhida, compete a mim.

Seguir o Desconhecido do lago significa aceitar  a vida como sacramento do encontro, onde ressoa a Palavra d’Aquele que passa, vê, conhece, ama, chama pelo nome...

Aos poucos vou intuindo que a vida não é questão de certezas, mas de busca e de desejos, de caminhar com Aquele que me chama para ficar com Ele e com Ele constituir a grande comunidade de servidores.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O certo é que avançar supõe fazer opções, renunciar à comodidade do conhecido e dar lugar à mudança.

Mas mudar me dá medo e o medo, às vezes, paralisa.

Tenho medo de minhas próprias capacidades; temo minhas máximas possibilidades; assusta-me chegar a ser aquilo que vislumbrei em meus melhores momentos.

No entanto,  não posso ser “bonsais” de mim mesma”, atrofiando meus recursos internos e tirando o brilho de minha vida.

Desprender-me do antigo e dar lugar ao novo implica um processo sempre enriquecedor  mas também doloroso.

Muitas vezes, para escapar do sofrimento, prefiro evitar os riscos em vez de assumir o fato de que, para dar à luz algo novo, necessariamente devo tomar a decisão de soltar o que me mantém ancorada no meu estreito mar e não me permite singrar os vastos oceanos.

O ser humano é um ser de mudança; só é humano quem vive em “estado de mudança”.

A mudança é o elemento que traz energia, variedade, surpresa, cor e vida a vida.

Trata-se de um “hábito do coração”: descobrir, examinar, purificar e substituir os hábitos inertes, os esquemas mentais fechados, as condutas petrificadas, os projetos sem horizontes...

Mudanças são a essência e o sabor da vida.



Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 4,12-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    

Sugestão:
Música: Deus nos chamou por amor – Fx 03 (03:38)
Autor: Padre Sala
Intérprete: Padre Sala
CD: Há sempre uma luz
Gravadora:  Paulinas Comep

Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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