BUSCA

A LÓGICA SURPREENDENTE DAS BEM-AVENTURANÇAS

Data de publicação: 24/01/2017


Leitura Orante –  4º domingo do tempo comum, 29 de janeiro de 2017

A LÓGICA SURPREENDENTE DAS BEM-AVENTURANÇAS

“Tomando a palavra, ensinava-lhes assim: Bem-aventurados...” (Mt 5,2)


Texto Bíblico: Mateus 5,1-12


1 – O que diz o texto?
O Evangelho que nos foi confiado é um programa para alcançar a felicidade, a vida ditosa, prazerosa, bem-aventurada. Na boca de Jesus brilha sempre a palavra chave: “Felizes”.

Os enunciados das bem-aventuranças soam à primeira vista como “idealistas”, “utópicas”, não possíveis de serem colocadas em prática no mundo em que vivemos. No entanto, pela sua provocação e questionamento, elas são a proposta mais realista, mais revolucionária e mais eficaz jamais pronunciada.

As bem-aventuranças são a exposição mais exigente e, ao mesmo tempo mais fascinante, da mensagem e da “intenção de Cristo”. Elas são a plenificação daquilo que é o mais humano em nós.

Poderíamos dizer que as Bem-aventuranças são a quinta-essência do seguimento de Jesus.

De fato, percebemos uma resistência surda frente às bem-aventuranças, não porque nosso coração não se reconheça nelas, mas porque parecem tão impossíveis, tão distantes estamos delas...; vivemos mergulhados em tantas contradições, profundos dramas e violências que nos parecem desmenti-las. Incomoda-nos e inquieta-nos sua mensagem de humildade, de mansidão, de paz, de pureza, de misericórdia... quando, na realidade, estamos envolvidos em construir, em fomentar um mundo que é arrogante, agressivo, violento, intolerante, excludente, injusto...

Temos resistências em escutá-las porque elas nos colocam de novo frente à verdade para a qual nascemos, diante do mais original de nosso coração e de nossas entranhas humanas. A ética de Jesus nas bem-aventuranças encontra resistência para ser assumida por nós precisamente em virtude de sua desconcertante humanidade.

As bem-aventuranças nos esperam no pequeno, no cotidiano, no próximo mais próximo, e nos impulsionam a proclamar: a paz é possível, a alegria é uma realidade, a justiça não é um luxo, a mansidão está ao alcance da mão... Elas nos dizem que nascemos para a bondade, a beleza, a compaixão...


2 – O que o texto diz para mim?
Aos olhos de Jesus nada é mais perigoso para o espírito humano do que vidas satisfeitas, acomodadas, sem desejos, sem a afeição das esperas e o desassossego das buscas; corações quietos, indolentes, medrosos, covardes, petrificados, sensatamente contentes com aquilo que são e têm.

Como são, ao contrário, humanamente repletos de vida os que quase nada são e têm, os que ainda se encantam com as buscas, os que sonham e lutam por um mundo novo. Sua vida é penosa, sem dúvida, mas repleta de razões, criatividade, entusiasmo e vitalidade.

As diferentes ciências (psicologia, filosofia, antropologia, etc) me fazem cair na conta de que todos os seres humanos desejam ser felizes. Também elas me permitem compreender que a felicidade não é uma situação existencial que posso agarrar e possuí-la. Também não é uma sucessão interminável de prazeres que acabam por me esgotar, mas uma forma de ser e de viver. Ela não emana do que tenho ou faço, mas do centro de meu ser.

As bem-aventuranças podem ser escutadas como uma mensagem que brota do mais profundo da vida e que tem como finalidade apresentar a qualquer pessoa o mais humano que existe no ser humano.

Ao proclamar bem-aventurados os pobres, os que choram, os perseguidos, os humildes... Jesus, certamente, jamais quis sacralizar a dor humana. Ele constata a situação do povo, de pobreza, humilhação, submissão; percebe o esforço que o povo faz para mudar a situação, e o proclama feliz nesta busca, porque esta busca mora no próprio coração de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A felicidade, proclamada aqui por Jesus, é já uma realidade presente na sua pessoa e na sua missão.

Todas e cada uma das bem-aventuranças são autobiográficas. Jesus viveu-as durante 30 anos antes de proclamá-las. Elas são, portanto, a expressão do que constitui o centro mesmo da sua pessoa e da sua vida, dos seus sentimentos, atitudes; numa palavra, do seu mistério.

Poderia dizer que as bem-aventuranças são o auto-retrato de Jesus. Elas são o compêndio do ministério de Jesus. Não é lei que se impõe por si mesma; é confissão: “o Reino chegou”.

As Bem-aventuranças não são uma doutrina, mas um estilo de vida, um modo de proceder. Jesus não prega diretamente uma moral. Proclama a “irrupção” da graça, do amor, da misericórdia, da justiça de Deus na história da humanidade.

Porque tem a certeza de que chegou a “hora” de Deus intervir na história, Jesus fica feliz e proclama “felizes” os até agora indefesos, oprimidos e marginalizados, mas que mantiveram viva a confiança em Deus.

Jesus fala da felicidade não no singular, mas no plural. Em outras palavras, o que Ele afirma é que a felicidade de cada um está em íntima relação com a felicidade dos outros, com quem cada um convive.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?

Senhor, todos sabem que nas igrejas fala-se muito mais da renúncia ao prazer, da mortificação, do sofrimento, da austeridade, do sacrifício, da suportabilidade e da resignação, ao passo que pouco se escuta sobre aquilo que deve mover as pessoas a buscar ser felizes, a deleitar-se com tudo aquilo que de bom Deus pôs no mundo e na vida, desfrutar o prazeroso, o sensível, o corporal. Não é comum encontrar pessoas que, espontaneamente, associem Deus e a religião à alegria de viver e, em geral, a tudo aquilo que me faz sentir melhor, sentir-me bem e ser mais feliz.

Portanto, o centro da fé cristã não está na religião com suas exigências de sacrifícios e renúncias, com suas verdades e suas normas, mas na felicidade dos seres humanos.

“A ética de Jesus é a ética do prazer de viver para todos, da felicidade compartilhada por todos, sem excluir ninguém. E isso é o que mais custa assumir e aceitar como projeto de vida, porque a ascética mais dura não é a da renúncia, mas sim da doação” (José Maria Castillo).


5 – O que a Palavra me leva a viver?

A felicidade que busco é o que realmente sou, e isto só se revelam quando a mente se cala. Ser feliz, portanto, consiste em experimentar na existência a plenitude de minha verdadeira identidade.

Ser feliz é deixar viver a criatura livre, alegre e simples presente dentro de mim.

A felicidade é, assim, o livre curso da vida, o fluxo contínuo da Vida em mim que se “entretece” com a vida dos outros.

Ao formular as bem-aventuranças, Mateus traça o perfil que caracterizará os seguidores de Jesus; elas condensam as atitudes básicas que os cristãos devem ter na relação com os outros, seguindo as pegadas do Mestre.

Jesus propõe a ventura sem limites, a felicidade plena para seus seguidores.

Deus não quer a dor, a tristeza, o sofrimento; Deus quer precisamente o contrário: que o ser humano se realize plenamente, que viva feliz...

Jesus acreditava na vida, e queria que todos vivessem intensamente.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 5,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne    


Sugestão:
Música: Bem-aventurados – fx 03 (03:00)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Cantigas de sabedoria
Gravadora:  Paulinas Comep

Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

Compartilhe este conteúdo:

Podcasting ver mais

Salmo 1 - parte1 - bloco1


Veja Também

O DESAFIO DE SOLTAR A VIDA
Leitura Orante – 5º domingo da quaresma, 02 de abril de 2017 - “Lázaro, vem para fora!” (João 11, 43) - Texto Bíblico: João 11,1-45
JESUS, AQUELE QUE “VÊ” E “FAZ VER”
Leitura Orante – 4º domingo da quaresma, 26 de março de 2017 - “Vai, lava-te na piscina de Siloé. Ele foi, lavou-se e voltou vendo.” (Jo 9,7) - Texto Bíblico: Jo 9,1-41
SAMARITANA: história de uma sede
Leitura Orante – 3º domingo da quaresma, 19 de março de 2017 - “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede...” (Jo 4,15) - Texto Bíblico: Jo 4
UMA VOZ QUE NOS TRANSFIGURA
Leitura Orante – 2º domingo da quaresma, 12 de março de 2017 - “Este é o meu Filho Amado, em quem me comprazo. Ouvi-o!” (Mt 17,5) - Texto Bíblico: Mateus 17, 1-9
OS “DEMONIOS” INTERIORES
Leitura Orante – 1º domingo da quaresma, 05 de março de 2017 - “O Espírito conduziu Jesus ao deserto, para que o Diabo o pusesse à prova.” (Mt 4,1) - Texto Bíblico: Mateus 4,1-11
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Newsletter

Receba Informativos Paulinas

Leitura Orante

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados