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OS “DEMONIOS” INTERIORES

Data de publicação: 01/03/2017


Leitura Orante –  1º domingo da quaresma, 05 de março de 2017

OS “DEMONIOS” INTERIORES

“O Espírito conduziu Jesus ao deserto,
para que o Diabo o pusesse à prova.” (Mt 4,1)


Texto Bíblico: Mateus 4,1-11

1 – O que diz o texto?
Os evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) colocam o relato das tentações de Jesus no início de sua atividade pública. Talvez com isso eles estão querendo dizer que, antes de começar uma missão libertadora, é necessário enfrentar-se com os próprios “demônios interiores”.

“Demônios interiores” é tudo aquilo que nos divide (“dia-bolum” – o que divide), que alimentam nosso egocentrismo, rompendo a comunhão com os outros, com Deus e com suas criaturas; são forças que permanecem ocultas, mas bem ativas em nós, conduzindo-nos aonde não queríamos ir.

O “dia-bolum” não quer que reconheçamos o Criador, e muito menos que lhe honremos nos outros. Ele gosta dos verbos que afirmam o ego: possuir, conquistar, adular, mandar, competir, destacar, impor...

E lhe causa repugnância aqueles verbos que nos fazem sintonizar com outros: doar, servir, colaborar, agradecer, suscitar, partilhar...

Os “demônios”, dos quais os relatos sinóticos nos falam, são três e caracterizam bem o nosso ego: o ter, o poder e a aparência (vaidade). É neles onde o ego se entrincheira e onde se apega para sentir-se que é “algo”. Bens materiais, poder e influência, imagem e prestígio: eis aí os interesses do ego.

Em outras palavras, o que o ego busca nesses apegos é uma só coisa: segurança.

A segurança não se encontra ao alcance do ego. Por isso, ele se desespera ao perceber que, por mais esforço que faça, não pode tê-la sob seu controle. Tampouco se encontra fora de nós, em outro lugar ou no futuro; nem sequer podemos situá-la em nossas ideias ou crenças.

Precisamente por isso, a maneira de “lidar” com esses demônios interiores é reconhecer e desvelar (tirar o véu) as carências pendentes em nossas vidas e descobrir a falsidade de suas promessas. Fica claro que são “tendências narcisistas”, próprias de um ego imaturo, que buscam um lugar ao sol e que desencadeiam um processo de auto-centramento e ruptura de aliança com tudo e todos.

Porque, o que ardentemente aspiramos não é “algo” que imediatamente nos complete. Aspiramos nada menos que o Absoluto (“adorarás ao Senhor, teu Deus, e somente a Ele prestarás culto”), mas não como “algo” ou “alguém” separado, mas essa Presença intima e amorosa que nos habita.

Essa Presença é segurança e constitui o núcleo de quem somos; ela é o “objeto” de nossa sede e de nossa busca porque é reveladora de nossa verdadeira identidade.


2 – O que o texto diz para mim?
Desvelar as “vozes diabólicas” de meu interior pode me ajudar a compreender que a segurança que elas prometem são vazias: todo o dinheiro do mundo, todo o poder e toda a fama são incapazes de conferir segurança e plenitude. Não só isso: aquelas vozes me confundem e me fazem distanciar de minha verdadeira identidade. Cedo ou tarde reconhecerei que o futuro do ego não tem fundamento e que, como dizia Jesus, viver para ele é “perder a vida”.

No tempo do deserto, Jesus viveu um processo de humanização profundíssimo, deixando-se pacificar e conduzir pelo Espírito, reencontrando, na própria história, pontos de referência fundamentais que vão situá-lo na condição de Filho de Deus.

As tentações não foram um momento da vida de Jesus, mas uma “sombra escura” que o acompanhou ao longo de toda sua vida.

Frente ao ídolo do poder e do ter, Ele se mantém de pé, despojado; frente ao desejo de utilizar sua condição de Filho em seu próprio benefício, elege o caminho da obediência sintonizada no Pai; frente ao discurso do êxito e da fama, Ele elege o do serviço.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O deserto é um lugar instigante na vida humana.

Apresenta-se como o lugar da tentação e também como o lugar onde o Senhor fala ao coração.

O interior não se expande sem períodos de deserto.

Há desertos que são buscados, e há também desertos que a vida me traz, surpreendendo-me.

Sempre aprofunda e alarga em mim uma dimensão do amor que meu ego fechado quer roubar-me.

Jesus, também tentado, me ajuda quando tentada.

Ele também “foi provado em tudo como nós” (Heb. 4,15).

Ele precisou superar a “divisão interna”, própria do ser humano, para poder viver a densidade humana, aberta e oblativa.

As tentações são expressão do conflito permanente de sua vida e de sua obra.

No deserto, Jesus tomou uma consciência tão plena de sua condição de Filho, a Palavra do Pai lhe deu tanta segurança e iluminou de tal maneira sua vida, que já se torna impossível confundir Deus com os falsos ídolos que o tentador lhe apresenta: um “deus” contaminado pelas piores pretensões da condição humana: possuir, fazer ostentação de prestígio, exercer domínio.

Jesus não veio para que os anjos esvoaçantes o carregassem, mas para carregar sobre seus ombros a ovelha perdida; não veio para converter as pedras em pães, mas para entregar-se Ele mesmo como Pão de vida; suas mãos não se fecham possessivas sobre as riquezas porque Ele precisa delas  livres para levantar caídos, sarar feridos ou lavar os pés cansados do caminho; não veio para trocar a pérola preciosa do Reino que o Pai lhe confiou por outros reinos que o tentador lhe mostrou a partir do monte.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o mundo em que vivo me condiciona a viver em torno do ter, do poder, da ambição do prestígio, da idolatria...

A tentação é a que promete o bem e me conduz ao mal; aquilo que parece atrativo e inclusive bom, mas me afasta de Deus e dos outros; aquilo que parece algo evidente, inevitável em minha vida quando na realidade não é; aquilo que, com enganos, me mata aos poucos.

Do meu interior, esta força do mal se encarna nas minhas atividades, instituições, estruturas (externalizado), provocando violência, gerando tensões, injustiças...  e criando uma sociedade opressiva, dividida, conflituosa, preconceituosa...

Esta situação, com suas seduções e ilusões se constitui em permanente tentação coletiva para o egoísmo, a insensibilidade e a ruptura da fraternidade.

Nessa "embriaguez existencial"  a alteridade desaparece, a abertura a Deus se atrofia e a gratidão frente aos bens se esvazia.

Jesus me ensina a pedir ao Pai que não me deixe cair nessas tentações que destroem o projeto de um mundo fraterno e igualitário.

Dar nomes aos “demônios interiores” que desumanizam.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Neste tempo quaresmal, identificada com Jesus na estadia do deserto, sou convidada a “desvelar” meus dinamismos “diabólicos”  que se instalam em meu interior, atrofiam minhas forças criativas e me distanciam da comunhão com tudo e com todos.

Viver humanamente consiste em deixar o Espírito circular livremente por todos os cômodos de minha morada, arejando-os, ventilando-os, religando-os, dando-lhes vida, reorientando-os.

A missão do Espírito é ajudar-me a fazer a travessia do deserto interior, tanto nas sombras como nas zonas de luz, até ao centro de mim mesma.

O Espírito procura entrar para fecundar, recolocar em ordem, restaurar, unificar.

Preciso me abrir para uma verdade maior quanto à minha humanidade, ou seja, que todos os meus recantos merecem ser visitados, olhados, ouvidos e abraçados; que cada aspecto de minha vida contém uma dádiva maior do que posso enxergar e cada sentimento merece uma expressão saudável.

A oração sobre as “tentações de Jesus” me ajuda a tomar consciência das alianças e cumplicidades nas quais posso cair em minhas relações com o mundo e com aqueles elementos que de modo mais decisivo põe em perigo minha liberdade: as riquezas, o poder, o prestígio.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 4,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne    


Sugestão:
Música: Foi teu Jesus que me ensinou – FX 05 (03:27)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Pe. Zezinho, scj - Cantores de Deus
CD: Nas ruas do país
Gravadora:  Paulinas Comep

Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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