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SAMARITANA: história de uma sede

Data de publicação: 13/03/2017


Leitura Orante –  3º domingo da quaresma, 19 de março de 2017

SAMARITANA: história de uma sede

“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede...” (Jo 4,15)


Texto Bíblico: Jo 4


1 – O que diz o texto?
No início do relato vemos uma mulher caminhando em direção ao poço de Siquém em busca de água; ela vive um “eu fragmentado”, perdida em sua solidão, sedenta de um sentido para sua existência...

Tinha graves problemas, estava confusa, em toda sua vida havia buscando o grande amor. No entanto, seus casamentos fracassados continuavam a perturbá-la. Era uma mulher que havia se perdido no caminho: tantos cântaros quebrados, tantos pedaços para recolher.

Jesus rompe com as fronteiras culturais e religiosas, assenta-se junto ao poço de Jacó e, através de um diálogo provocativo, ajuda a mulher samaritana a encontrar, dentro dela mesma, esse centro de onde mana sem cessar uma água que mata a sede, e não buscá-la em tantos poços secos ou rachados.

Com sua presença instigante, Jesus ajuda a mulher a integrar suas rupturas existenciais, reconstruindo-a como pessoa, a partir de sua própria interioridade.

O encontro com Jesus fez a samaritana viver uma verdadeira “páscoa”, passando de uma vida trivial e dispersa à missão de anunciar aos outros Aquele com quem se havia encontrado.

Como uma água “que jorra para a vida eterna”, uma torrente de gratuidade percorre a cena e transfigura a mulher.

Ela foi sendo conduzida até sua própria interioridade através de um paciente processo que a fez passar da dispersão à unificação, da exterioridade à interioridade, da desarmonia à unidade interior, da solidão à comunhão com os outros.

Ela entra em cena como “uma mulher da Samaria” e sai dela como conhecedora do manancial de “água viva”, consciente de ser buscada pelo Pai para fazer dela uma adoradora. Sua identidade transformada a converte em uma evangelizadora que consegue, através de seu testemunho, que muitos se aproximem de Jesus e creiam nele. Aquela que falava de “tirar água” como uma tarefa de esforço e trabalho, abandona agora seu cântaro: Jesus a fez descobrir um dom que lhe é entregue gratuitamente.

Na realidade, ela passou a ter a sensação de estar nascendo pela primeira vez e que Deus a amava.

Caíam as etiquetas. Tudo o que tinha sido, a samaritana, filha de sangues misturados e de religião meio pagã, a mulher com uma vida afetiva fracassada, a amante que, depois de compartilhar sua vida com seis homens, duvidava de ter sido amada de verdade alguma vez... tudo aquilo parecia deixar de existir.

Os véus que cobriam o verdadeiro rosto da mulher do cântaro vazio, foram levados pelo vento. Ela se tornou “pessoa”.


2 – O que o texto diz para mim?
Estou, aqui, diante de uma vida em processo. Ao longo do relato assisto a tentativa da mulher de permanecer em um nível superficial e mover-se em seu diálogo com Jesus no âmbito da superficialidade.

Uma e outra vez ela procura escapar e desviar a conversação para terrenos que não permitem descer em sua profundidade e que não a deixam enfrentar-se com a verdade de sua existência.

Mas ela não contava com a tenacidade de Jesus e com sua determinação de alargar aquela vida atrofiada.

Ao longo do encontro, Jesus é o verdadeiro protagonista, o condutor da cena e aquele que marca as estratégias da conversação.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Como hábil pescador, Jesus joga suas redes e lança seus anzóis para tirar a mulher, com quem dialoga, das águas enganosas da trivialidade e do desejo de auto-justificação que a afogam.

Como bom pastor que conhece suas ovelhas, Jesus a faz sair do deserto da superficialidade, vai guiando-a para a profundidade e autenticidade, para a terra do dom da água viva.

Como amigo que busca criar relações pessoais, em nenhum momento emite juízos morais de desaprovação ou condenação: em lugar de acusar, prefere dialogar e propor, emprega uma linguagem dirigida ao coração da mulher.

Como “expert” em humanidade, Jesus mostra-se profundamente atento e interessado pela interioridade de sua interlocutora e lhe faz descobrir o manancial que pode brotar do mais profundo dela mesma.

Revela-lhe também a interioridade de Deus como Pai que busca adoradores em espírito e em verdade.

Jesus desperta a samaritana a cair na conta que é preciso abrir-se a um “manancial” novo, que lhe vem através d’Ele e que “brota em seu interior” de um modo permanente. Ele é o manancial e com sua presença desperta o manancial interior da samaritana, entupido.

Comprovo hoje uma atrofia ou um “déficit de interioridade”, pois a volatilidade das sensações passageiras dificulta ter acesso à minha própria identidade.

Continuamente chegam até mim, sensações inteligentes e sedutoras elaboradas pelos técnicos da publicidade em laboratórios e ilhas de edição e semeadas na minha afetividade subconsciente.

Estou rodeada por telas iluminadas (tvs, smart, tablets, computadores...) que emitem uma mensagem “interessada” e me forçam a permanecer na superfície de mim mesma, esvaziando-me de toda densidade humana.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, “dá-me um pouco de sede porque estou morrendo de água!”

Eis o clamor da minha geração que tendo quase tudo, parece que não consegue descobrir o sentido da própria existência. Morre de sede junto ao poço de água viva.

A sede se refere à busca de sentido presente em todo ser humano, busca daquilo que traz definitivamente a paz: a “água viva” que coincide com o “dom de Deus”.

Por isso, o relato se situa intencionadamente em chave de oferta: “se conhecesses o dom de Deus...”

Acabou-se o tempo dos templos; a adoração passa pelo coração, é interior e verdadeira, corresponde a uma vida em fidelidade.

A experiência acontece quando escuto em meu interior o “eco” que a água viva produz, saciando meus desejos mais plenos.

“Uma água viva murmura dentro de mim e me diz: Venha para o Pai” (S. Inácio de Antioquia)

Como a samaritana, também diante de mim se apresenta uma alternativa: continuar buscando água viva e justificação em poços secos e esgotados ou eleger “vida eterna” e deixar-me arrastar pela oferta de transformação proposta pelo Jesus que me busca, porque deseja ampliar minha existência e comunicar alegria e plenitude.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Preciso redescobrir uma pedagogia que me conduza até o mais profundo de minha intimidade, onde o Espírito alimenta a originalidade de meu ser único, através de uma fonte que nunca se esgota.

Preciso, sob a ação da Graça, destravar meu centro vivo e sempre inédito, de tal maneira que brote a novidade que tudo renova e plenifica minha existência.

Preciso buscar inspiração no encontro instigante de Jesus com a Samaritana, junto a um poço.

Assim como a água, necessária para a vida é preciso extraí-la do fundo da terra, também a água do Espírito é preciso tirá-la das profundezas de si mesmo.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 4
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne    


Sugestão:
Música: Um encontro junto ao poço fx – 01 (04:02)
Autor: Luiza Riccardi – Luiz A. Karam
Intérpretes: Marcelo Mattos – Maria Diniz
CD: Encontro com Jesus – Canções Bíblicas
Gravadora:  Paulinas Comep

Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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