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RAMOS: “o conflito com o poder até sua raiz última”

Data de publicação: 03/04/2017


Leitura Orante –  Domingo de Ramos, 09 de abril de 2017

RAMOS: “o conflito com o poder até sua raiz última”

Tendo Ele entrado em Jerusalém,
a cidade inteira estremeceu, perguntando-se:  “Quem é este?” (Mt 21, 10)


Texto Bíblico: Mateus 21,1-11

1 – O que diz o texto?
Jesus rompe o silêncio e entra na cidade de Jerusalém de maneira impactante, como Messias cheio de autoridade, mas faz isso de forma pacífica, sem armas nem soldados, anunciando o reino de Deus para os pobres e a partir dos pobres.

Não optou por empregar violência externa, nem prepotência ou domínio (religioso, militar, econômico) de uns sobre os outros, porque o Reino de Deus não se manifesta com violência, nem se mantém por meio do poder ou da sacralidade sacerdotal.

Até então Jesus havia se movimentado mais na clandestinidade, esperando o momento oportuno, a “sua hora”. E essa foi a “sua hora”: desmascarar a manipulação e extorsão daqueles que com poder autoritário tinham oprimido o povo.

Por isso, sua vinda, nesse tempo de Páscoa, não foi um gesto privado; veio de um modo público, pois queria a transformação ou conversão da cidade de Jerusalém.

Para alguns, esse gesto de cruzar os umbrais da cidade foi altamente provocativo e quiseram frear o entusiasmo que Jesus despertava pela sua passagem.

Ele se tornou um perigo que deveria ser eliminado.

Os dirigentes religiosos e os líderes do povo judeu deram-se conta de que aquele homem, Jesus o Nazareno, questionava, da maneira mais radical, o sistema no qual eles se sustentavam para continuar exercendo um poder ao qual não estavam dispostos a renunciar.

A festa da entrada de Jesus na cidade de Jerusalém revela-se uma ocasião privilegiada para considerações sobre nossa presença e o nosso habitar nas grandes cidades de hoje.

Às vezes, a grande cidade pode nos parecer um lugar estranho e hostil; ela se revela complexa e confusa como um labirinto, perigosa e traiçoeira como o deserto, espessa e impermeável como uma floresta.



2 – O que o texto diz para mim?                                                                                                                                     
A Paixão de Jesus teve causas históricas concretas e foi o desenlace final de uma vida que entrou em conflito com o sistema religioso - político estabelecido na sociedade daquele tempo.

Sua vida e sua mensagem revelaram uma novidade de tal magnitude que rompeu com as estruturas que atentavam contra a vida.

De fato, Jesus apostou na vida de todos os seres humanos e por isso não se deixou subornar por nenhum poder destruidor de vidas.

O conflito de Jesus foi o conflito com o poder, mas o poder levado até sua raiz última.

Por isso, Jesus compreendeu que, para mudar o comportamento dos dirigentes da cidade de Jerusalém, a primeira coisa a fazer era desmontar o “ídolo” que legitimava o poder autoritário daqueles que oprimiam o povo indefeso.

Jesus desmontou o “seu deus” e atirou por terra “seus podres poderes”.

Foi exatamente isso que provocou o enfrentamento, que desembocou na sua morte.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Este confronto com o poder religioso e político ficou evidente na cena da “entrada de Jesus em Jerusalém”.

A subida a Jerusalém foi, sem dúvida, uma decisão meditada, mas também profundamente radical.

A chegada de Jesus com seus discípulos e discípulas à cidade santa, formando parte da comitiva dos peregrinos que vinham dos quatro cantos do mundo conhecido, para celebrar a Páscoa, se converteu numa procissão festiva.

O Mestre, evocando a profecia de Zacarias, não entrou em Jerusalém como um rei, guerreiro triunfador, na garupa de um possante cavalo, mas montado em um burrinho, entre sinais de natureza e de concórdia (palmas, ramos, cantos de alegria e de paz), mostrando-se assim como o enviado humilde de um Deus cujo poder é o amor.

Jesus, que havia anunciado a novidade do Reino, rompe com os esquemas e paradigmas.

O povo o quer identificar como um messias que vai triunfar e tomar o poder, como um novo Davi, mas Jesus procura fazer descobrir que o poder nunca é mediação para a libertação do ser humano.

Nem o poder econômico, nem o político, nem o religioso solucionam as desigualdades e injustiças humanas, nem sequer criam esperanças libertadoras.

Este é o momento definitivo de atuação de Jesus: subiu a Jerusalém na festa principal dos judeus.

Com seu gesto Ele atinge o centro do poder político e religioso, encarnado na cidade de Jerusalém. Até então seus gestos foram libertadores das pessoas.

Agora Ele arremessa diretamente contra a cidade que exclui e mata.

Aquele “dia de Ramos” foi uma autêntica manifestação de desafio.

Assim, no domingo de Ramos, abro espaço para entrar na minha cidade com Jesus, com sua força, com sua presença crítica; só assim, me manterei lúcida nessa mesma cidade tão distante da proposta de vida apresentada pelo evangelho.

Sou enviada a todas as fronteiras de minha cidade não para impor a fé e o Evangelho, mas para dialogar com aqueles que não pensam como eu, com aqueles que não creem, com aqueles que estão muito distantes, marginalizados...

Desde aquele dia de Ramos sei que Deus mesmo habita em minha cidade, para além dos limites da Igreja;  Ele deixa marcas de sua presença em tudo e em todos.

Só aquele que vive “em saída” pode entrar em sintonia com a ação do Senhor e ser presença de luz no próprio espaço urbano.

“A fé me ensina que Deus vive na cidade, em meio a suas alegrias, desejos e esperanças, como também em meio a suas dores e sofrimentos” (Doc. Aparecida, 514).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, nas cidades existem situações que dificultam ou impedem a descoberta de Deus e a vivência de relações mais humanas: a violência, a pobreza, a discriminação sexual, a intolerância, o racismo e muitas outras atitudes e práticas que separam, excluem e oprimem.

As ofensas contra a pessoa humana, sua dignidade e seus direitos, são impedimentos para reconhecer e descobrir a presença do reinado de Deus.

Jesus “entrou” em Jerusalém para que também eu entre em minha cidade de maneira inspiradora e provocativa, buscando e construindo a nova cidade, feita de paz e de concórdia, rompendo com tudo aquilo que desumaniza e trava os espaços de convivência.

Sou chamada a construir pontes e não muros de separação, a ser presença reconciliadora e não de divisão.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A experiência de uma pastoral urbana me capacitará a descobrir e potenciar a presença real do Deus que revela seu rosto nas pessoas, casas, bairros, povos, cidades e metrópoles.

“O coração dos povos é o santuário de Deus”.

Trata-se de “passear com o Absoluto pelas ruas da cidade” (Michelstaeder).

O Deus presente nas cidades é um Deus que me chama e interpela a partir do reverso da história, a partir dos lugares ocultos, dos “outros - espaços” de exclusão... e a me comprometer na construção da Jerusalém justa e fraterna.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 21,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    


Sugestão:
Música: Jesus Cristo sendo Deus – Fx 03
Autor: Reginaldo Veloso
Intérpretes: Maria do Carmo Diniz  - Sueli Gondin - Ângela Márcia Pereira da Silva –Ringo - Caio Flávio - Paulo Roberto de Campos
CD: Novo Milênio
Gravadora:  Paulinas Comep

Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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