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EUCARISTIA CÓSMICA: comunhão com o universo

Data de publicação: 08/04/2017


Leitura Orante –  Quinta-feira Santa, 13 de abril de 2017

EUCARISTIA CÓSMICA: comunhão com o universo

“Fazei isto em memória de mim”


Texto Bíblico: João 13,1-15


1 – O que diz o texto?
Nesta Quinta-feira Santa, celebramos o Amor até o extremo de Jesus, a radicalidade de sua ternura que se faz cuidado até o ponto de assumir todo o sofrimento da humanidade mais excluída e da criação mais ferida. Jesus é a misericórdia em ação, a misericórdia em relação, vivida no corpo a corpo com as pessoas mais oprimidas e exploradas. N’Ele se faz carne e se revela o rosto do Deus todo cuidadoso da Criação, que vela pela dignidade de toda criatura, que “não quebra o ramo já machucado, não apaga o pavio já fraco de chama” (Is 42,3).

Em Jesus, Deus se revelou encarnado na história e, por sua atuação, morte e ressurreição, fica claro que Ele fez do universo seu corpo. A presença real de Jesus, no pão e vinho da Eucaristia, nos desperta a reconhecê-Lo presente no coração do Cosmos e da História.

Céu e Terra estão integrados; o finito se faz espaço e revelação do Infinito, e Deus acontece nas relações humanas interpessoais e nos cuidados por tudo que diz respeito à harmonia neste mundo.

Pela Eucaristia, valorização definitiva do universo através da comunhão, somos confrontados com a presença transformadora de Deus em tudo e em todos.

A Eucaristia nos educa no respeito e cuidado para com tudo aquilo que nos cerca.

Tudo e todos são sinais do divino, que rejeita toda forma de dominação e exclusão, exploração e divisão, substituindo-a pelo respeito e cuidado que integra a natureza, promove a vida e confraterniza a convivência.

A Eucaristia clarifica e atualiza a Vontade do Pai: “E a vontade d’Aquele que me enviou é esta: que não perca nenhum dos que Ele me deu, mas os ressuscite no último dia” (Jo 6,39).

“A Criação encontra sua maior elevação na Eucaristia.(…) O Senhor, no apogeu do mistério da encarnação, quis chegar ao nosso íntimo através de um pedaço de matéria. Não o faz de cima, mas de dentro, para podermos encontrá-Lo no nosso próprio mundo. Na Eucaristia, já está realizada a plenitude, sendo o centro  vital do universo, centro transbordante de amor e de vida sem fim. Unido ao Filho encarnado, presente na Eucaristia, todo o cosmos dá graças a Deus. Com efeito, a Eucaristia é, por si mesma, um ato de amor cósmico. Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar de uma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo. A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo, saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no Pão eucarístico, a criação está orientada para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador. Por isso, a Eucaristia é também fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira”.


2 - O que o texto diz para mim?                                                                                                                      
É o papa Francisco quem, em sua importante encíclica “Laudato si´” (n. 236), alude a esta dimensão cósmica da eucaristia. Porque no pão e no vinho se concentra toda a essência da Criação, a exuberante riqueza de seus recursos, a fecundidade inesgotável dos biomas, a beleza deslumbrante de suas fontes e rios, de suas matas, de suas montanhas...

Mais uma vez, durante o tempo quaresmal deste ano, a Igreja do Brasil (CNBB) me alertou para os perigos da devastação do meio-ambiente, além de despertar a atenção de todo povo cristão para o cuidado e proteção da Criação de Deus.

Com o tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e o lema: “Cultivar e guardar a criação” o objetivo foi dar destaque à diversidade de cada bioma e criar relações respeitosas com a vida e a cultura dos povos que nele habitam.

“Cultivar e guardar” nascem da admiração. A beleza que impacta meu coração faz com que eu me incline com reverência diante da Criação. Como discípula do Senhor, tenho a missão de ser servidora no amor, dentro das relações vividas no cotidiano de minha realidade.

Tocada pela bondade e diversidade dos biomas, sou conduzida a uma grande ação de graças. E a Eucaristia é o momento privilegiado para isso.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O texto acima sobre a criação é, sem dúvida de uma grande densidade teológica.

Os dons eucarísticos, o pão e o vinho, por sua condição material e terrena e por sua vinculação com o trabalho humano, são parte da criação, algo que faz parte da minha vida, “um pedaço de matéria”; pertence à minha condição mais própria e íntima.

Tudo isto aponta para a convicção de que, no insondável mistério eucarístico, os dons apresentados são uma representação do cosmos inteiro.

Todo o universo cósmico é assumido e se faz visível na Eucaristia. Desse modo a Eucaristia acaba se convertendo no centro do cosmos, no “centro vital do universo”.

Quem come do Pão e bebe do Vinho, entrega-se ao dinamismo da Ressurreição, comprometendo-se com a luta contra as forças da morte: egoísmo, violência, indiferença, omissão política, desonestidade na gerência dos bens, descuido nas relações afetivas, isolamento no medo, destruição do meio-ambiente, poluição...

Simbolicamente, na Eucaristia, o pão é partido para significar a doação de Jesus; e ao comer deste pão, aceito ser como o grão de trigo que, caído no chão da história, produz frutos para o bem de todos. Essa presença mística de Cristo em mim, dinamizada pela Eucaristia, consagra irmãos solidários, cidadãos do mundo. Aqui está o fundamento da espiritualidade ecológica que me faz sensível para guardar e cuidar todas as expressões de vida, reveladas nos diferentes biomas desse meu imenso país.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, cultivar a “memória de Jesus”, de tudo que celebrou na Última Ceia, é tornar viva e atual Sua presença nas diferentes refeições junto ao seu povo. Consciente da missão que o Pai lhe confiara, Ele despertava as pessoas para seu próprio valor, para a dignidade e originalidade de cada um...

Nessa perspectiva, Ele as libertava da banalidade do medo, do poder excludente, da ansiedade, da culpa e da passividade na submissão, para um sentido superior de ser  e conviver.

Na prática do amor, Jesus se fez presente-doação em todas as situações de exclusão e marginalidade, envolvendo a todos com a solicitude misericordiosa do Pai.

Tal doação-entrega atingiu o cume na partilha do pão e do vinho, na celebração da Eterna Aliança.

O dom eucarístico, portanto, tal como a humanidade de Jesus, não pode ser reduzido a um simples objeto desligado das demais relações envolventes (com Deus, com os outros e com toda a Criação). “Como o pão é um só e o mesmo, formamos todos um só corpo” (1Cor. 10, 14-22).


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Nem sempre estou preparada para assumir a tarefa  tão humilde do Lava-pés, porque esta tarefa implica prostrar-se, descer ao húmus, entrar em contato com a terra, o barro, a poeira…

Lava-pés é o gesto humilde que não me humilha, mas me humaniza e me faz viver a comunhão com toda a Criação.

Lava-pés é hábito de vida, um “modo de proceder” que mais me identifica com Aquele que mais “cultivou e guardou a Criação”.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  João 13,1-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Ilustração: Internet


Sugestão:
Música: Cena à beira de um Regato – fx 03 (13:15)
Autor: Beethoven
Intérpretes:  János Ferencsik – Hungrarian State Orchestra
CD: Beethoven sinfonia nº 6 em Fá maior Op. 60
Gravadora:  Paulinas Comep

Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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