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TRINDADE - do Triângulo ao Ícone

Data de publicação: 05/06/2017



Leitura Orante – Solenidade da Ss. Trindade, domingo 11 de junho de 2017

TRINDADE: do Triângulo ao Ícone

Deus amou o mundo: a ponto de dar o Unigênito, a fim de que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3, 16)

Texto Bíblico: João 3,16-18


1 – O que diz o texto?
A festa da Trindade nos mobiliza para uma nova maneira de viver e de nos relacionar com o Deus Comunhão de Pessoas, cuja presença preenche o cosmos, irrompe na vida, habita decididamente no interior de cada um de nós e é vivido em comunidade.

A Trindade “desvela” a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade. Deus é Amor e só amor.

Diante da presença e da ação do Deus Trinitário, afogam-se as palavras, desfalecem as imagens e morrem as especulações. Só nos restam o silêncio, a adoração e a contemplação.

Para facilitar tal atitude, vamos ativar nossos sentidos interiores para que se deixem impactar pelo Ícone de Rublev: da Trindade pensada à Trindade adorada.

A Trindade não é fácil de ser representada. Aqui o artista representou-a na figura de três anjos peregrinos, assentados à mesa de Abraão.

O quê vemos neste ícone?

Três anjos, reconhecidos por suas asas, estão assentados em torno de uma mesa. Os três sustentam um cajado na mão (Trindade Peregrina).

Trata-se de uma representação do relato da hospitalidade de Abraão, que se encontra em Gênesis 18, quando o Senhor apareceu ao patriarca na planície de Mambré, sob a forma de três jovens.

Abraão os convidou a descansar e lhes ofereceu uma refeição. A tradição patrística viu nesses visitantes uma figura das três pessoas divinas.

Podemos nos aproximar do ícone a partir da beleza; num primeiro olhar, a divindade aparece revelando-se como uma grande luz que atrai e purifica.

A ausência de sombras no ícone quer fazer refletir a luz divina em tudo, situa-nos diante da santidade de Deus e nos convida a participar da luz da vida trinitária.

Tudo está no mesmo plano, o plano celestial; e, num olhar de fé, detrás da beleza de sua realidade sensível, o ícone nos remete mais além do visível, para a beleza das realidades divinas que representa e transmite; a razão emudece, o coração admira. Ou seja, não é a imagem em si mesma que nos eleva pelo que representa, mas aquilo para o qual ela aponta: o mistério trinitário ou o “excesso de Deus”.


2 – O que o texto diz para mim?
Em primeiro lugar, o ritmo ou movimento circular que parece invadir todos os elementos do ícone, convidando-me a entrar no mistério de Deus.

O movimento que, partindo do Pai, passa pelo Filho e se consuma no Espírito, é um movimento de amor sem fim.

Aqui, o ícone deixa transparecer o amor que une às três Pessoas divinas. Trindade é mistério de comunhão. É uma comunidade perfeita.

O ícone, através da reciprocidade dos olhares, evoca o eterno movimento de amor que une as três Pessoas divinas, no sentido de que nenhuma delas esgota em si mesma a existência, nem vive por si mesma, senão que subsiste num mistério de total compenetração que ao mesmo tempo as une e as diferencia.

Isso é sugerido também pelo movimento circular do rosto inclinado dos três anjos, eternamente jovens, sentados à mesa do universo, em torno ao alimento divino; rostos que são semelhantes sem ser realmente idênticos. A linha triangular dos rostos e o círculo dos corpos estilizados indicam um mistério de diversidade na unidade.  Fundidos num êxtase que fala de unidade e de harmonia, os três rostos já dizem tudo.

Pouco importa se o Pai é sugerido pelo anjo do centro ou se, antes, há um movimento que vai da esquerda à direita: o personagem da esquerda indica ser o Pai; o do centro, o Filho; e o da direita, o Espírito Santo. As figuras do centro e da direita olham com rosto respeitoso e humilde para a da esquerda, que se mantém mais erguida que as outras duas, posto que o Pai é origem e princípio de tudo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
As três pessoas divinas, com efeito, tem a mesma atitude de abertura, de respeito, de súplica e de invocação.

Deles emana um mistério de eternidade, de amor, de quietude, de paz, de serenidade.

Esse movimento se manifesta igualmente ao fundo do quadro. A árvore se inclina para a esquerda do orante como se fosse submetida ao sopro de um vento forte. Ainda à esquerda se inclinam os planos cortados do teto do edifício. Tudo está em movimento, porque a vida é sair de si mesmo, é doar-se.

Esse ritmo exprime a circulação e a comunhão da mesma Vida divina entre as Três pessoas.

Mas a Trindade não se fecha em si mesma. O movimento expansivo expressa adoção, efusão, dom, generosidade e  graça, que admite, convida o ser humano ao círculo divino.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, tudo se orienta, na fé, para o mistério, para o encontro D’Aquele que vem.

Curvando a árvore, o movimento circular da vida divina atinge a natureza.

Inclinando o teto do edifício, atinge a humanidade orante, a humanidade no que ela tem de mais elevado.

O mundo todo constitui, de certo modo, a periferia; as Três Pessoas divinas permanecem no centro.

Fixo, agora, nos traços das três pessoas.

Elas não tem idade e, no entanto, transmitem uma impressão de juventude.

Elas não tem gênero, no entanto elas unem o vigor à graciosidade.

As fisionomias e os gestos não foram “construídos” em vista do charme e, no entanto o charme que se desprende é imenso.

Rublev soube expressar de uma maneira única a eterna juventude e a eterna beleza das três pessoas.

Cada um dos três anjos leva nas mãos um cajado alongado e muito fino. É que cada pessoa divina é um viajante, um peregrino. O quadro ressalta a participação de toda a Santíssima Trindade no mistério da salvação. Os três cajados constituem uma declaração e uma promessa. Eles declaram que os três já vieram fazer morada na humanidade. Eles prometem que os três continuam, através da presença expansiva, a conduzir tudo para a plenitude. O quadro evoca, pois, o conselho das Três Pessoas divinas em vista da redenção do gênero humano.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O artista, com sua obra, não pretendia sugerir pensamentos, mas uma oração. A perspectiva do ícone é orante, pois me predispõe para “entrar” no mistério de Deus; também me convida a abandonar a lógica cotidiana do útil, para poder entrar na lógica da gratuidade, do espaço místico e cultual, do diálogo com Deus, até os cumes da adoração.

O ícone da Trindade de Rublev me recorda que não se trata de entender, ou de pensar e estudar o Mistério da Santa Trindade. O decisivo é viver o mistério a partir da adoração e da partilha fraterna.

É Deus quem toma a iniciativa de se aproximar dos seres humanos. Como foram até Abraão, a Trindade quer se aproximar também de mim. Dentro de mim habita um Abraão e uma Sara.

Que a contemplação deste quadro me coloque em contato mais profundo com as Três pessoas divinas para poder repetir, prostrada, as palavras de Abraão aos divinos visitantes na planície de Mambré: “Meu Senhor, se mereci teu favor, peço-te, não prossigas viagem sem parar junto a mim, teu servo”.

Se eu  acolher as Três pessoas de todo coração, poderei, como Abraão, receber de sua boca a certeza de que essa experiência abençoada, longe de ser um episódio isolado, me será concedida de novo: “passarei de novo pela tua casa”. Só assim sentirei Vida brotar em minha  vida, como irrompeu no seio de Sara. Não mais serei  velha, estéril e infecunda. A fé faz rejuvenescer.

Que a contemplação do belo e do Santo faça brotar em mim a imagem de Deus que é Pai-Filho-Espírito.

Amém!


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  João 3,16-18
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne   


Sugestão:

Música: Santíssima Trindade – fx 09 (02:31)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Nas asas da contemplação
Gravadora: Paulinas Comep





Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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