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CORPUS CHRISTI - festa do corpo

Data de publicação: 12/06/2017


Leitura Orante – Corpus Christi, quinta-feira 15 de junho de 2017

CORPUS CHRISTI: festa do corpo

E o pão que eu darei para o mundo é minha carne. (Jo 6,51)


Texto Bíblico: João 6,51-58


1 – O que diz o texto?
Deus se revela encarnando-se, assumindo um corpo que sente, que vibra, que tem prazer e que sofre, uma carne que treme, vulnerável ao frio e ao calor, à fome e à sede. Corpo que comunga com nossa mortalidade, padecendo dor, agonia e morte, sendo sepultado no ventre da terra como toda criatura.

Segundo os Evangelhos, Jesus de Nazaré foi Aquele que soube ser feliz transitando com sabedoria e amor o caminho do próprio corpo. Ele não tinha uma mentalidade dualista: sua visão do mundo não era dicotômica nem hierarquizada, nem separava entre sagrado e profano. Essa mentalidade que contaminou o cristianismo não procede d’Ele, mas de filosofias posteriores.

Na festa de “Corpus Christi” fazemos memória deste mistério: o único recurso de que Jesus dispunha antes de ser preso e sofrer a paixão era seu próprio corpo. Não teve outra riqueza nem outro dom a nos oferecer. Esse Corpo que era sua própria vida; sentia-se abençoado em sua totalidade, sem deixar nada fora. Agradeceu por isso e fez dele um gesto definitivo: entregou-se por inteiro, sem nada reservar para si. A partir de então, torna-se um Corpo expansivo que se deixa tomar pelas nossas mãos e saborear pela nossa boca, na maior proximidade e no mais íntimo contato.

De agora em diante, será nos corpos vulnerados, nos corpos que sofrem, resistem e curam, onde Ele quer permanecer expressamente presente, com uma presença imediata que não deixa lugar a dúvidas: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes”.

Na festa de Corpus Christi, há um grande perigo de alimentar a devoção à presença real de Jesus na Eucaristia desvinculado da realidade  de sua Encarnação, ou seja, esquecer que Ele se fez corpo, viveu intensamente seu ser corporal e comprometeu-se com os corpos desfigurados e sofredores dos outros, recriando-os e impulsionando-os a uma vida mais plena.

Portanto,  “Corpus Christi” é festa do corpo de Jesus e de todos os corpos. Festa do pão e do vinho, frutos da terra e da comunhão de todos os seres. A Terra é um grande organismo vivente; o universo, com suas estrelas e galáxias é um imenso corpo. Da mesma forma cada átomo é um corpo no qual se movimenta o universo do imensamente pequeno.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus não se apresentou como inimigo do corpo, do prazer e da festa, nem foi um asceta como João; pelo contrário, escandalizou por sua forma festiva, prazerosa e livre de viver seu corpo e suas relações. Desfrutou de banquetes em companhia de gente excluída e marginalizada por diversas razões, e isso foi motivo de espanto. O fato de ter sido acusado de “comilão, beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” é a melhor expressão de sua liberdade relacional e sua maneira de viver reconciliado com seu corpo ao permitir-se prazeres corporais: comer, beber, dormir, descansar, desfrutar dos sentidos... a vista, o sabor, o olfato, o tato.

Nem ele nem seus discípulos guardavam o jejum, participando de casamentos, banquetes, refeições festivas com “gente de má fama”, para escândalo dos considerados “puros”.

Além disso, Jesus viveu seu corpo como um lugar para a relação sem medos nem tabus: tocou e se deixou tocar com profunda liberdade, escandalizou os seus discípulos desfrutando do contato amoroso com Maria de Betânia, que derramou sobre Ele um caríssimo perfume, num gesto de total gratuidade e marcada somente pelo desejo de compartilhar amor e gratidão.

Olhou o corpo das mulheres de um modo muito diferente daquele dos seus contemporâneos; para Ele, elas nunca foram lugar de tentação ou seres inferiores dos quais não tinha nada que aprender: foram amigas, companheiras, discípulas, mestras em muitos momentos.

O corpo humano está no centro da revelação cristã, já que se trata de algo assumido pelo mesmo Deus na Encarnação de seu Filho Jesus Cristo; Ele se faz corpo humano e habita entre nós. Este gesto divino eleva e engrandece a corporeidade humana e a resgata para sempre, já que a divindade abraça a “carne”, assumindo sua fragilidade para dentro de Si mesmo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sempre foi verdade a afirmação de que “sou corpo”, e não a afirmação de que “tenho corpo”; mas durante muito tempo a espiritualidade cristã esqueceu esta verdade, considerando o corpo como algo acidental ao ser humano, olhando-o com suspeita e inclusive como seu inimigo. Identificada com uma mentalidade dualista que desconecta corpo de espírito, material de espiritual, terra de céu..., a espiritualidade cristã manteve a questão do corpo um tanto exilada e silenciada.

Atualmente caio no perigo extremo: sou somente corpo, como se o corpo fosse o único centro de atenção da vida. Na cultura pós-moderna, o corpo está se convertendo em extensão da imagem de meu ego, ao invés de ser expressão de minha história pessoal e de uma vida aberta à plenitude de Deus.

Jesus empenhou-se por praticar um amor operativo e, sobretudo, centrado nos corpos enfermos, desgarrados, desnudos, famintos, encurvados, paralisados, cegos, coxos, leprosos...; além disso, deixou claro a quem quisesse escutá-lo, que isso era o fundamental para entrar no Reino: passar pela vida como terapeuta - sanador e não como juiz que acusa; abraçar e acolher a carne sofredora dos outros e não manter uma prudente distância do corpo vulnerado de Jesus.

E, se com sua vida não tivesse ficado suficientemente claro, quis, num momento solene, recordar a todos que a verdade última sobre o que é ganhar a vida ou perdê-la definitivamente está no fato como trato o corpo de meus irmãos que sofrem. O amor não é algo etéreo: ou passa pelo corpo ou é apenas um bom desejo e nada mais.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, desconectado de sua intimidade, o corpo vive como objeto dos olhares exteriores e por isso se coisifica e se tecnifica como se fosse uma mercadoria.

“Sou corpo” em relação com tudo o que é. Sou nuvem, água, ar, terra. Carrego  todo o universo dentro de mim. Sou Terra que sente, canta, pensa, ama. Sou partículas de matéria aberta, fonte inesgotável de possibilidades. Sou corpo, sou espírito, sou alma, sou afeto, sou relação… Sou milagre.

Meu corpo, que sou eu mesma, tão efêmero mas habitado pelo Infinito, o Eterno.

Eu também, como Jesus, em comunhão com todo o universo em movimento e evolução, é “corpo de Deus”. O Infinito se manifesta e emerge de meu interior. Acolher esse mistério, deixar acolher pelo Infinito em mim, deixar que suba desde o mais profundo em mim a Voz que me diz: “Isto é o meu corpo”.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Celebrar o Corpus Christi de outra forma.

Celebrar o meu corpo, tão maravilhoso e vulnerável.

Cuidar do corpo, sem torturá-lo com minhas obsessões, sem submetê-lo à escravidão de minha moda e medos.

Respeitar como sagrado o corpo do outro, sem apropriar-me dele.

Sentir como próprio o corpo do faminto, do excluído, do refugiado, da  mulher violentada, maltratada, da criança abandonada...

É meu corpo. É o Corpo de Jesus. É o Corpo de Deus.

Celebrar, cuidar, ser Corpo de Deus, epifania carnal da Ternura infinita.

Que a festa de “Corpus Christi”  me anime a viver minha vida cotidiana buscando fazer de meu corpo um lugar de encontro, de vida, de amor, sem medos nem tabus. Serei mais feliz e, ao mesmo tempo, serei agente de felicidade em meu entorno.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  João 6,51-58
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne   

Sugestão:
Música: Lição de amor – fx 09 (03:50)
Autor: Padre Fábio de Melo
Intérprete: Padre Fábio de Melo
CD: De Deus um cantador
Gravadora: Paulinas Comep



Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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