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HOSPITALIDADE - acolher para humanizar-se

Data de publicação: 26/06/2017


Leitura Orante –  13º domingo do tempo comum, 02 de julho de 2017

HOSPITALIDADE: acolher para humanizar-se

“Aquele que vos acolhe a mim acolhe, e quem me acolhe,
acolhe aquele que me enviou.” (Mt 10,40)

Texto Bíblico: Mateus 10,37-42


1 – O que diz o texto?
Certamente todos já viram um invento recreativo para crianças, composto de um globo inflável que flutua sobre um reservatório de água; ali elas são introduzidas, e ficam se movendo prazerosamente.

Tal invento evoca um comportamento muito frequente nas pessoas atualmente. Sem se darem conta, elas mesmas fabricam uma bolha e se fecham nela como num reduzido microcosmo.

Elaborado pela mente e inflado pelo ego, esse pequeno globo enclausura-as em um mundo muito definido e estreito: o êxito, a vaidade, o dinheiro, os bens materiais, um ambiente raquítico de espaço e tempo, torna-se sua única realidade. A presença do outro, sobretudo do “diferente”, é totalmente desprezada.

No entanto, para quem é seguidor(a) de Jesus, poderíamos perguntar se há algo mais além, por detrás dessa bolha, desse globo fechado no qual todos brincam como crianças inconscientes.

Despertar o “eu profundo e universal” é descobrir-nos como habitantes de um universo novo e espaçoso, um “eu sou” com sabor de infinito, com a consciência expandida que rompe a bolha e nos faz sentir a liberdade amorosa dos filhos e filhas de Deus.

Deus “se fez diferente” e é na “diferença” que Ele vem ao nosso encontro como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio criativo. Deixemo-nos surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas, crenças, legalismos, bolhas...; ou nossa vivência de fé se reduzirá a um ritualismo fechado, impedindo sair de nós mesmos.

“Aprendi que Deus, não tendo domicílio, só aceita a mística do ‘porta-em-porta’” (Frei Cláudio).

Também os muros estão voltando à moda. Não podemos esquecer que os muros foram criados para a segregação.

O muro econômico e social se visibiliza no muro que segrega os excluídos e marginalizados.

Um muro é uma ordem, um silêncio forçado e prolongado, é vontade de poder.

Muros são pedras no sapato dos poetas. Como tirá-los do caminho?

Muros não têm semente, ainda que se multipliquem pelo mundo.

O muro é um veneno.

Muros são concretos: muros entre ricos e pobres, entre homens e mulheres, entre ignorantes e doutores, entre negros e brancos, entre centro e periferia...

Muros são urros. Muros são murros, são muito burros! Todos os muros deviam envergonhar, pois se os muros pudessem ensinar alguma coisa, desistiriam de serem muros.


2 – O que o texto diz para mim?
Muitas vezes, os muros, as cercas e as portas me protegem da diversidade, blindam minha individualidade e parecem itens indispensáveis à sobrevivência. Assim, sou prisioneira de minha estreita visão de mundo e faço de minha habitação uma couraça que enclausura.

Melhor a viagem que me faz vulnerável do que a segurança que me rouba o caminho.

Melhor enfrentar a vertigem do horizonte e usufruir da liberdade do que inventar cercas e muros reconfortantes que me faz cativa e solitária.

A vivência do seguimento de Jesus Cristo implica romper a bolha que asfixia a vida e derrubar os muros que cercam o coração, atrofiando a própria existência.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Hospitalidade é a palavra-chave na identificação com Aquele que se fez andarilho e buscou hospedagem. Hospitalidade é abrir um espaço para o outro.

Muitas vezes, ser hospitaleiro não é colocar alguém dormindo na minha própria casa. É escutar alguém que é totalmente diferente de mim; é ter a capacidade de dar espaço à fala de alguém diferente.

Para abrir espaço para o outro é preciso me desalojar do meu próprio espaço; é preciso se despojar da minha ideia de “estar sempre certa”, das minhas próprias convicções, dos meus próprios sentimentos. Porque o peregrino tem o potencial de subverter, despertando ansiedades enterradas e aflições contidas.

Quem oferece a hospitalidade está rompendo com seu modo habitual de ser e viver.

Abrir-se ao outro é sair de sua própria comodidade. O anfitrião, ao ser deslocado, encontra valores e atitudes dentro de si que o enriquecem. A melhor metáfora desta hospitalidade é a imagem da mãe que “faz espaço dentro de si para acolher o outro”, e assim multiplica a vida.

Tal hospitalidade se apresenta como um valor humano, espiritualmente vital e conectado com a vulnerabilidade de todo ser humano que sempre requer ser acolhido; e, para acolher o outro, precisa criar espaços habitáveis e abandonar lugares inóspitos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, se eu  quiser que a vida cristã tenha a marca da Ressurreição, é necessário compreender que ela é chamada a um compromisso diferente e mais profundo: sair da reclusão do meu próprio mundo para entrar na grande “casa” de Deus; romper com o tradicional para acolher a surpresa; deixar a “margem conhecida” para vislumbrar o “outro lado”; desnudar-me de ilusões egocêntricas; afastar a “pedra” da entrada do coração para poder viver com mais criatividade... 

As respostas do passado às questões atuais já não satisfazem; as velhas razões para fazer coisas novas, simplesmente já não movem os corações num mundo repleto de novos desafios.

Não há razão para permanecer nas bolhas e condomínios quando todas as circunstâncias mudaram.

A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige que todos, de tempos em tempos, revisem suas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver...   que impedem a entrada do ar para arejar a própria vida.

Há, em todo ser humano, uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção. Também os cristãos não estão imunes a esta tentação.

No entanto, nada mais contrário ao espírito cristão que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho aberto à aventura.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Buscar, no seguimento, fazer e viver o que fez e viveu Jesus. Para isso adotar as atitudes, o olhar e a capacidade de contemplação da realidade que o mesmo Jesus adotou. Ele abraçou diferenças e novos horizontes. O Seu ministério ultrapassou as fronteiras. Ele rompeu com os muros do preconceito social, racial, religioso, de gênero... 

Como cristã, a graça que recebo é estar com Ele e com Ele caminhar, olhando o mundo com os Seus olhos, amando-o com o Seu coração e penetrando no seu íntimo com a Sua infinita compaixão.

Minha vocação é a de construir pontes e ser presença reconciliadora em situações de fronteira, optando por uma “globalização na solidariedade”.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 10,37-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    


Sugestão:
Música: Humano demais – fx 06 (04:52)
Autor: Pe. Fábio de Melo
Intérprete: Pe. Fábio de Melo
CD: Humano demais
Gravadora:  Paulinas Comep

Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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