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O LADO MAU AMADO DE NOSSA VIDA

Data de publicação: 17/07/2017


Leitura Orante –  16º domingo do tempo comum, 23 de julho de 2017

O “LADO MAU AMADO” DE NOSSA VIDA

“Não; não aconteça que, ao removerdes o joio, arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer juntos até a colheita.” (Mt 13,29-30)
    

Texto Bíblico: Mateus 13,24-43
 
1 – O que diz o texto?
A Bíblia fala sempre da vida humana. Nela encontramos inúmeras referências à questão da sombra ou do lado obscuro em nossa vida.

Textos emblemáticos são as parábolas de Jesus que desvelam o que somos o que está acontecendo em nosso interior; em certo sentido, assemelham-se a uma descrição de nossa realidade interior.

Não são contos moralizadores; todos os personagens que aparecem somos nós. Por isso, as parábolas são tremendamente iluminadoras. Com efeito, cada um de nós é um tipo diferente de terreno; cada um, o trigo e o joio; cada um, os dois filhos; cada um, o fariseu e o publicano..., e assim por diante, em todas as parábolas.

O primeiro e o mais claro que se revela na parábola que a liturgia nos propõe para este domingo, é que a realidade da vida humana é de tal condição, que nela sempre vão estar mesclados o bem e o mal, o trigo e o joio, a boa e a má erva. Este é o fato.

Todos nós gostaríamos que as coisas acontecessem de outra maneira. E que, portanto, não teríamos que ver cada dia tanto joio sufocando o bom trigo que cresce e dá vida.

Em nosso interior também sentimos cruamente o trigo e joio, e gostaríamos ser um bom campo de trigo, desses movidos pelo vento, que antecipam um pão abundante; e todo joio que aparece junto a esse trigo nos molesta, desejaríamos arrancá-la e como, depois de muito esforço, não conseguimos, então empreendemos a tarefa de ir buscar joios em campos alheios com um fervor que impressiona.

A parábola do joio e do trigo  revela a tendência humana em realizar os ideais de perfeição e distanciar-se cada vez mais de sua condição de criatura. O ideal é o ser humano “puro” e “justo”, sem qualquer imperfeição ou fraqueza. Tal tendência nos leva ao rigorismo contra nós mesmos, ou seja, nos leva a proceder com violência contra nossas próprias limitações.

O ensinamento do evangelho de hoje é claro: sejamos tolerantes e respeitosos. Não julguemos, não condenemos e deixemos a Deus ser Deus. Nós não somos “deuses”.


2 – O que o texto diz para mim?
Aquele que, a qualquer preço, deseja ser “perfeito”, em seu campo não irá crescer senão um trigo raquítico. Nas minhas raízes o joio está intimamente misturado com o trigo. Quando alguém não admite em si nenhuma falha, com suas paixões ele arranca também a própria vitalidade, com a fraqueza ele destrói também a própria força. Muitos perfeccionistas e idealistas se fixam de tal maneira sobre o joio em seu interior que só pensam em eliminar as falhas, de tal modo que a vida mesma fica prejudicada.

De tão perfeitos, eles ficam sem força, sem paixão, sem coração.

Numa espiritualidade “perfeccionista”, o ideal é o homem-mulher puro(a) e santo(a), sem defeitos nem fraquezas. Mas isso leva a um rigorismo moral, contra o qual parece dirigir-se a parábola deste domingo. A arte da humanização consiste na reconciliação com a própria sombra. O ser humano comporta em si amor e ódio, razão e emoção, gentileza e dureza...
Muitas vezes vivo apenas um polo e recalco o outro. Enquanto este permanecer nas sombras terá um efeito destrutivo. Muitos ficam chocados quando, apesar de todo esforço para serem pessoas amáveis e gentis, descobrem em si lados insensíveis, antipáticos e ofensivos.

Um outro aspecto que aparece na parábola é que os “trabalhadores do Senhor”, ou seja, os que se veem a si mesmos como os vigilantes da ortodoxia e da moralidade, tem a tendência de querer logo arrancar o joio. Ou seja, não toleram que o bem e o mal estejam misturados. E querem um campo limpo de tudo o que eles veem como joio. Normalmente, esta tendência daqueles que se consideram como “vigilantes do bem” costuma desembocar na intolerância e inclusive na intransigência e no fanatismo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Na “parábola do trigo e do joio” , o impaciente é o meu orgulho, que gostaria de chegar de imediato aos resultados para ficar “satisfeito”.

Enquanto eu viver, o joio crescerá no campo do meu interior. Conviver com isso me faz mais humilde e me protege de uma dureza falsa em relação a mim mesma e aos outros.

A sabedoria de Jesus convida-me a reconhecer em mim, misturados, o trigo e o joio. Este último, que é semeado “durante a noite”, isto é, na obscuridade do inconsciente, podem ser minhas próprias sombras, aquilo que tento eliminar porque se mostra incômodo para mim e não combina com meus ideais pré-fixados... E Jesus não me pede que eu seja só trigo – essa é a armadilha de toda espiritualidade farisaica - , mas que aceito minha verdade completa e reconcilie também com o “meu lado obscuro”

Numa leitura moralista e dualista da vida, eu separo o bom do mau, os que pensam como eu e os que não pensam como eu, os que são dos meus e aqueles aos quais não os levo em conta.

Há muitas pessoas que, não só se sentem capacitadas, senão que, além disso, estão empenhadas em arrancar o quanto antes o que elas pensam que é a erva má. São os intolerantes, os que não suportam aqueles que fazem ou dizem o que eles creem que não se deve fazer nem dizer. Por isso não respeitam o pluralismo, nem a diversidade. Exigem que todos lhes respeite, mas eles se consideram com direito a não respeitar o dissidente, o diferente ou simplesmente o outro.

No entanto, o Senhor (dono do grande campo da vida) não quer que ninguém se veja no direito de discernir o que é trigo e o que é joio. Mas, sobretudo, o Senhor não tolera que ninguém se constitua em juiz que, como consequência, vai pela vida arrancando tudo o que a ele lhe parece que é joio. Porque pode equivocar-se. A religião não tem nem autoridade nem competência para decidir o que é joio na sociedade. E menos ainda tem competência para arrancar esse presumível joio.

Somente o Senhor pode saber quem é trigo e quem é joio.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a fertilidade da minha vida nunca é expressão de uma impecabilidade absoluta, mas resulta da confiança no fato de que o trigo é mais forte do que o joio e de que o joio poderá ser separado na colheita.

Em tudo que faço deve ser permeáveis ao Espírito de Deus. Mas sempre devo permanecer humilde e contar com a possibilidade de que minhas atividades cotidianas se misturem com segundas intenções. Essas são o joio. Mas isso não significa que devo deixar o joio determinar a minha vida, através do seu crescimento irrefreado.

A questão de fundo é esta: qual dos dois eu alimento em minha vida: o joio ou o trigo?

Aqui se trata de pôr ambos, o trigo que cresce em mim e o joio que espreita, sob o olhar e o cuidado do Semeador; porque só Ele é que pode fazer a colheita. O decisivo é colocar o Senhor no centro de minha vida; e onde Ele encontra espaço de atuação, ali o trigo cresce viçoso e produz frutos.

O caminho do seguimento de Jesus não visa me transformar em pessoa perfeita e impecável. Antes, deseja encorajar-me a conviver com meus lados sombrios. O seguimento de Jesus, portanto, não é o combate interno que desgasta, visando eliminar o joio, mas abrir espaço para que o Semeador atue com sua Graça.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A vida cristã me faz especialista em interioridade precisamente porque sou levada a percorrer, mil e uma vezes, todos os meandros de meu interior para encontrar, transcendendo luzes e sombras, a Presença criadora que tudo sustenta e vivifica.

E é simplesmente dessa maneira que me torno mais humana e, portanto, mais divina.

Ter uma lucidez de minha própria sombra (joio).

Ter atitudes e Assumir que o trigo determine a minha vida.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 13,24-43
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    


Sugestão:
Música: Joio e trigo – fx 07 (02:43)
Autor: Ir. Lucia Silva, imc
Intérprete: Ir. Magnólia C. e Silva
CD: Partilha
Gravadora:  Paulinas Comep

Fonte: Pe. Adroaldo Palaoro, sj
Postado por: admin_radio

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