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ARTIGO: As interpretações do coronavírus

Data de publicação: 17/04/2020

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DADOS DO PRODUTO

Título: Igreja em saída e a casa comum (A)
Autor(a): João Décio Passos
PAULINAS - LIVROS
Coleção: Francisco
Formato: (14,0 x 21,0)
Páginas: 208
Código: 528722
ISNB: 9788535640854
Preço: R$ 26,50

RELEASE


ARTIGO: As interpretações do coronavírus
João Décio Passos
Somos testemunhas e protagonistas de um momento original da história da humanidade. Narraremos às gerações futuras a experiência de “uma pandemia globalizada” no pleno sentido do termo e, talvez, de uma guinada na história, após o controle certo do vírus, a crise econômica inevitável e o futuro incerto. A pandemia assusta como todas as epidemias de ontem e de sempre, mas termina assimilada biologicamente pelo contágio natural ou, na era das ciências, pela imunização realizada por meio das vacinas. Contudo, o drama humano do episódio permanecerá na memória com suas dores e até com seus traumas. O mundo por certo não será mais o mesmo após o primeiro semestre dos anos vinte.
Os significados de um fato como este são muitos e, na sociedade da informação, adquirem dinâmicas próprias, seja pela pluralidade de leituras veiculadas, seja pela agilidade e pelos efeitos diretos nas bolhas sociais constituídas pelas redes de comunicação. A vida de cada indivíduo mundialmente conectado está afetada por uma ou outra leitura sobre a pandemia. Ninguém fica isento dos efeitos sociais, políticos, religiosos e éticos das informações que circulam em grande volume e com velocidade espetacular.

As muitas leituras feitas sobre a pandemia revelam as diferentes percepções de mundo que afloram em momentos de crise, das mais sensatas às mais exóticas. Elas rompem com uma relativa regularidade hermenêutica que dispensa ou camufla as leituras mais radicais que peitam os consensos: a começar pelas que afirmam a inexistência de uma pandemia até aquelas que buscam causas e intervenções religiosas, passando pelas que enxergam na crise uma vingança da natureza ou uma natural purificação da espécie.

As leituras das ciências estão evidentemente no comando das interpretações. No século XIV quando a peste negra matou quase a metade da população da Europa, a leitura predominante era a religiosa: a pandemia tinha uma causa sobrenatural e, por conseguinte, uma solução ritual. A ciência da época patinava entre o religioso e o cósmico por não dispor de instrumentos capazes de visualizar os micros organismos, de expor as causas reais e, por conseguinte, intervir com eficácia sobre os efeitos. Hoje felizmente temos posse desses conhecimentos e, rapidamente, os colocamos em ação. O mundo está pautado nas ciências, desde os estudos detalhados do vírus, até as estratégias de controle estatístico da evolução do contágio. Embora as ciências não resolvam tudo, oferecem a ferramenta indispensável para os poderes intervirem na epidemia na busca de medidas que minimizem ou até mesmo evitem seus efeitos.
Contudo, as leituras religiosas ainda persistem paralelas às ciências, quando não ocupando o lugar delas. Não têm faltado leituras semelhantes àquelas do século XIV que colocam como causa do vírus Deus ou o diabo e, por conseguinte, oferecem rituais de solução: cultos, unção com óleo, novenas, correntes de oração, crucifixo na porta, água benta aspergida na rua, procissão com o Santíssimo Sacramento. Ninguém duvida do apelo popular dessas estratégicas e nem do poder das interpretações religiosas. As religiões populares de diversas matrizes lançam mão de interpretações sobrenaturais e de rituais de intervenção na natureza, sobretudo nos tempos de crise.

A fé judaico-cristã e a boa teologia exigem que desvinculemos Deus das causas imediatas dos fenômenos naturais e que busquemos o sentido das contingências inevitáveis da vida, da dor, do sofrimento e da morte no horizonte pascal da vida que vence a morte, da empatia que rompe com o isolamento e da solidariedade que supera os individualismos. Exigem também que busquemos na ciência a orientação para os enfrentamentos das doenças, evitando a tentação de transformar milagrosamente as pedras em pão. Em nome da verdade da fé e da razão, não podemos reproduzir as leituras mágicas da realidade, mesmo que utilizando dos símbolos mais sagrados da tradição cristã. A fé oferece sentido constante para as coisas que têm solução e para as coisas que não têm solução. Ela “é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem” (Hb 11,1) e não a posse mágica da natureza e a solução do que a ciência não soluciona. As explicações e os controles dos mecanismos da natureza são da ordem das ciências. O sentido de todo o conjunto da vida em qualquer circunstância pertence à fé. Quem pode dominar o coronavírus são as ciências. Quem nos ajuda a enfrentar a crise e avançar olhando pra frente com esperança é a fé. O coronavírus seguirá seu ciclo regular e natural. Os grupos de risco e os pobres morrerão em maior número. A ciência vai controlá-lo o quanto for possível. A fé vai alimentar nossa resistência, ajudar a superar nossos individualismos e ativar nossa misericórdia para com os que sofrem.

Sobre o autor:
JOÃO DÉCIO PASSOS possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1987), graduação em Teologia pela Pontifícia Faculdade de teologia N.S. da Assunção (1991), especialização e Filosofia da Religião pela PUC-MG, mestrado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1995), mestrado em Teologia pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores (2009) e doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001). Livre Docente em Teologia pela PUC-SP. Atualmente é professor associado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, professor doutor do Instituto Teológico São Paulo e Editor da Editora Paulinas. Tem experiência na área de Filosofia e teologia, atuando principalmente nos seguintes temas: teologia pública, epistemologia, ensino religioso e sociologia da religião.

Sobre Paulinas:
Referência de qualidade, ética e respeito pela diversidade cultural, Paulinas Editora está presente no Brasil desde 1931 e, ao longo de sua trajetória, vem sendo reconhecida por sua atuação com inúmeras premiações, com destaque para oito Prêmios Jabuti – o mais importante prêmio literário do País, conferido pela Câmara Brasileira do Livro –, e com participação em feiras literárias internacionais.


Contato para imprensa  Marco ASA | Tel.: (11) 5081-9333 | WhatsApp: (11) 99942-5487 | imprensa@paulinas.com.br


Fonte: sala de imprensa
Postado por: Sala de Imprensa



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