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Futebol é sim coisa de menina!

Ela chegou quietinha com seus cabelos presos em um rabo de cavalo e três piercings nas orelhas. Bonita, inteligente e muito simpática, Kelly Nara Tapia Mamani, 13 anos, é uma das alunas do Centro de Promoção Humana Irmã Tecla Merlo, que fica no Grajaú, zona sul de São Paulo (SP).

Kelly é paulistana e está na 7ª série do Ensino Fundamental. Joga futebol e, diga-se de passagem, muito bem. É atacante e treina em uma das escolinhas do Corinthians na categoria Sub-13. Tem quatro irmãos: Márcia (15 anos), Jilary (11), Alan (8) e Kevin, com pouco mais de 2 meses de vida. Seus pais se chamam Susana Mamani e Silvério Tapia, nascidos na Bolívia, por isso os traços andinos em seu lindo rosto e o espanhol como idioma oficial da família.

Na entrevista a seguir, Kelly, que frequenta o Centro de Promoção de segunda, quarta e quinta-feira, fala do seu sonho de ser jogadora profissional de futebol. E, se eu fosse você, não perderia a conversa com essa craque!



Ficamos sabendo que no Centro de Promoção Humana você pratica artes, informática e esportes, e que o futebol é a sua paixão. É verdade? Por quê?


Eu me inspirei na minha mãe porque ela jogava quando era pequena e me ensinou. Já a vi jogando e joguei com ela. Ela é goleira, e eu atacante. Minha mãe nasceu na Bolívia, mas ela não conta muito como era a sua infância. Aqui em São Paulo ela joga às vezes, porque acabou de ter o Kevin.

Até um tempo atrás a galera falava que futebol era coisa de menino. Existe ainda algum tipo de preconceito em torno das mulheres jogarem futebol?

Na escola não tem mais esse preconceito, eu não sinto. Esse é um preconceito bobo e ultrapassado. Se as meninas sentem vontade de jogar bola têm que ir pra cima dos meninos também. Eu fui e eles me respeitam porque sou boa, acho que se eu fosse ruim eles iam tirar sarro de mim, como eles tiram dos meninos que jogam mal.

E como é a sua rotina de escola e treinos?

Acordo às 6 horas para ir à escola, chego lá às 7 horas. Saio às 12 horas e venho direto para o curso aqui no Centro de Promoção, e do curso eu vou direto ao meu treino na Vila Carrão (zona leste de São Paulo).

Fiquei sabendo que você treina no Corinthians, mas como você foi parar lá? Passou por peneiras?

Sim, treino no Corinthians, sou corintiana e é muito bacana. Eu jogava na escola e um cara me viu jogando e me chamou para treinar no time. Faz quase um ano. Estou na categoria Sub-13.

Como é o treino?

Quando eu chego me alongo e me aqueço, depois vou trotar e correr, então vamos ao coletivo treinar contra o Sub-15.

Qual a jogadora ou jogador que você mais admira e que até a inspira em campo?

O Cristiano Ronaldo, só ele.

Você tem vontade de se tornar uma atleta profissional do futebol? E, se por acaso não der pra seguir nessa carreira, o que pretende fazer?

Tenho sim, é meu sonho. Tenho sempre isso para os treinos, não falto nunca para jogar. Se eu não virar atleta mesmo, quero ser policial e não sei muito bem por que, mas eu gosto de ajudar as pessoas, pegar os ladrões.

Onde você mora tem muita violência?

Sim, eu moro perto de uma favela, e lá acontece muita coisa ruim. Lá não há parque ou outros tipos de lazer.

Você já pensou em se tornar costureira como seus pais?


Já ajudei meu pai a costurar, mas não quero isso, é muito trabalho. Ao menos não falta nada em casa.

O que é preciso fazer para se tornar um atleta profissional?

É preciso disciplina e respeito com os outros atletas. Por exemplo, após os dribles, não pode tirar sarro.

Você tem traços muito fortes da cultura boliviana, claro, e infelizmente há casos de preconceito em São Paulo contra bolivianos. Já sentiu isso?

Só na escola eles ficam tirando um sarrinho, só isso. Alguns falam do meu cabelo, que é lisinho.

Você já conhece a Bolívia?

Sim. Fui lá várias vezes com meus pais. É muito legal, mas não tem shopping, é só feira e muita comida diferente, tem mais sopa lá. Não tenho vontade de morar na Bolívia, até tem futebol lá, mas é muito ruim, não é organizado.

Voltando a falar de futebol, qual a sensação que você tem quando faz um gol?


Ah, é uma sensação muito boa, me sinto feliz, alegre. Dá vontade de chorar às vezes de tanta emoção.

Por Karla Maria 
Entrevista extraída da revista Super +, edição de novembro de 2016.


 




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