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Educomunicação e formação pastoral

Data de publicação: 30/06/2017

Educomunicação e formação pastoral  na cultura digital

Dra. Ir. Helena Corazza, fsp
Diretora do SEPAC

A comunicação como eixo articulador dos processos comunicacionais na educação e nas pastorais, tendo em conta as linguagens e uma metodologia participativa.
    
Educomunicação e Pastoral são dois campos de estudo e de atuação com aspectos comuns que unem reflexão e práticas e expressam o ser e o atuar na sociedade. Educomunicação reúne conceitos de educação, comunicação e suas inter-relações. Pastoral refere-se à ação da Igreja no mundo, que aplicada ao campo comunicacional e utilizando-se dele, traz o conceito de educação na vivência e transmissão da fé.
 As práticas educomunicativas carregam em si uma carga teórica de reflexão que as fundamentam tanto no espaço educativo quanto no da pastoral. A ligação entre teoria e prática estabelece uma dialética em que comunicação e educação se relacionam numa interação que requer um processo da comunicação dialógico e participativo, tendo o ser humano como sujeito dos processos comunicacionais.
No contexto latino-americano e brasileiro a Educomunicação tem sua origem nas reflexões de comunicadores e educadores a partir de um contexto social e político que buscou a liberdade de expressão como prática de cidadania para que o povo pudesse ser sujeito apropriando-se da palavra. Projetos internacionais foram organizados e aplicados em favor da democratização da comunicação, e levados adiante pelo Movimento popular, pelas igrejas e instituições de comunicação, tendo em vista seu compromisso social e educativo.
Essa matriz de pensamento, que por alguns segmentos da educação formal como política de comunicação a escola, e não formal, sobretudo as pastorais, é que originou o processo e a atuação educomunicativa, com projetos no Brasil, em diversos países da América Latina e em alguns países do mundo. O contexto atual muda com as tecnologias digitais, mudanças culturais e políticas, criando novos hábitos e modos de perceber a vida e os valores pelo ser humano contemporâneo.
A abordagem da Educomunicação e da formação para a pastoral no campo da comunicação, acompanha as pesquisas no processo de criação do conceito e sua aplicação no contexto atual em que a comunicação assume a centralidade nas práticas cotidianas, o que exige um repensar das mesmas no campo educativo e pastoral. A educação para a comunicação na pastoral indica uma modalidade de apresentar a fé cristã, tendo presente o ser humano concreto, com linguagem acessível e ações de intervenção em relação a diversas áreas da organização e do cuidado no campo da comunicação.
Estudos realizados indicam que a Educomunicação não é somente uma área de conhecimento em construção, mas uma forma de compreensão e posicionamento perante o modo atual de produção da cultura e da reconfiguração dos espaços comunicacionais, dos modos de narrar que exigem estudos interdisciplinares, sendo a Educomunicação um meio de reconhecimento da centralidade da comunicação. Trata-se de expressão que não apenas indica a existência de uma nova área que trabalha na interface comunicação e educação, mas também sinaliza para uma circunstância histórica, segundo a qual os mecanismos de produção, circulação e recepção do conhecimento e da informação se fazem considerando o papel da centralidade da comunicação.
Comunicação e Educação, duas áreas de conhecimento que interagem, buscando ver a comunicação e a educação como processo relacional em construção. Neste sentido o campo da comunicação trabalha nas inter-relações sinalizando que ela faz parte do cotidiano, na produção, circulação e mediação na sociedade contemporânea.
Por sua vez, a expressão Pastoral da Comunicação nasce do conjunto de duas realidades que interagem reciprocamente: comunicação e pastoral. Comunicação entendida como processo de relações entre as pessoas de forma presencial ou mediada pela técnica. O Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil entende que a  Pastoral da Comunicação define-se como “um processo dinâmico, dialógico, interativo e multidirecional” (CNBB, 2014, p. 14), o que requer pessoas que conheçam, compreendam, apliquem e assumam esta visão para as diferentes realidades da comunicação contemporânea.
Os documentos do magistério da Igreja sobre comunicação recomendam a organização do campo específico que é a Pastoral da Comunicação e introduzem a transversalidade e o diálogo com outras áreas, pedindo que a comunicação faça parte das demais práticas pastorais, uma vez que tem sua contribuição a dar. A Igreja adverte que não é suficiente ter um plano de Pastoral da Comunicação, mas “é necessário que a comunicação faça parte integrante de todos os planos pastorais, visto que a comunicação tem, de fato, um contributo a dar a qualquer outro apostolado, ministério ou programa” (Aetatis Novae, 1992, p. 29).

Linguagens configuram os modos de narrar
A mudança nos modos de narrar e saberes marcados pela entrada de novos códigos e combinações, que criam sentidos, ampliando os modos de perceber, de sentir e de pensar, que articulam a lógica e a intuição. As expressões plurais e sensoriais na linguagem oral, escrita, sonora, imagética, digital, de forma linear ou não linear, são maneiras de conhecer e narrar o mundo com janelas simultâneas, potencializadas pelas conexões da comunicação mediadas pelas tecnologias.
A linguagem é uma característica própria do ser humano, enquanto racional, o que garante sua interação social. Essa capacidade comunicativa no convívio social favorece a troca de mensagens, produzidas por um sistema de signos verbais, sonoros, visuais e táteis, que evoluem com as combinações e a hibridização da linguagem, de modo que a comunicação está em trânsito, e se torna necessário estabelecer diálogos para a ampliação do campo educativo e comunicacional.
O ser humano manifesta de forma privilegiada a sociabilidade como dimensão essencial do existir. A linguagem unifica o mundo dos objetos e dos sentidos e é fundamental na organização da vida social, nas inter-relações, assumindo diversidade de formatos na produção pela mídia. O sentido das linguagens nas diferentes maneiras de narrar, assumidas pela mídia, da linguagem verbal, passando pelo texto escrito, visual, sonoro e do hipertexto. Linguagens complexas, que são resultado da capacidade de se cruzar, numa mesma situação, vários tipos de signos, hibridizando-os.

Metodologia integrada: pensar, produzir e conviver
 Para que a Educomunicação responda às realidades contemporâneas necessita de uma metodologia integrada, ou seja, formar pessoas capazes de pensar, produzir, compartilhar, conviver. Esta é a metodologia adotada pelo SEPAC (Serviço à Pastoral da Comunicação), que tem o ser humano como sujeito do processo comunicacional. Essa metodologia se alinha aos princípios e valores de capacitar agentes culturais e sociais na área da comunicação, qualificando a atuação profissional, cultural e pastoral, na totalidade do ser humano.  A competência neste campo é uma exigência que aliada ao compromisso com os valores da cidadania, torna mais eficaz a comunicação. Essa metodologia tem como eixo central a comunicação como processo integrado que inclui a reflexão, a ação e o relacionar-se de forma articulada. Trata-se de uma formação para ser e atuar, focando o ser humano como sujeito em sua interação e convivência na sociedade, com as tecnologias e ambiente comunicativo. Assim, insere-se a pessoa em sua formação humana, cultural, espiritual e intervindo na sociedade, em função de uma comunicação democrática e participativa.
Evidenciam-se três eixos que acontecem de forma integrada: pensar, produzir e conviver no processo de comunicação dialógica e participativa. O pensar envolve a reflexão teórica, o conhecimento disponível com distanciamento crítico, conforme as teorias atuais de análise da comunicação, a recepção e análise de produtos midiáticos; o produzir envolve o conhecimento das diferentes linguagens e a habilidade do planejamento e da criação de produções que possam circular na sociedade; o conviver envolve o ser humano como sujeito do processo comunicativo, o ambiente, a comunicação visual, o acolhimento das pessoas com afeto, a infraestrutura que possibilite o exercício e a experiência da comunicação. Esta metodologia integrada, desperta as capacidades  para ações de intervenção, ou seja, ações que transformam.

O sujeito como “intelectual orgânico”
Uma das condições básicas para o processo da Educomunicação é a questão do sujeito. Para Mário Kaplún, a apropriação do conhecimento pelos alunos/agentes pastorais se catalisa quando eles são instituídos e potencializados como emissores. Seu processo de aprendizagem é favorecido e incrementado pela realização de produtos comunicáveis e efetivamente comunicados. No pensamento de Paulo Freire, o que caracteriza a comunicação é o diálogo, é possibilitar ao outro ser interlocutor e “dizer a palavra”, ou seja, ser sujeito.
A partir de 1990 o SEPAC reenfocou seu trabalho para responder às demandas dos agentes pastorais, que manifestaram o desejo de uma formação mais consistente. A equipe constatou que as pessoas que procuravam capacitação eram lideranças atuantes em meios de comunicação da Igreja, em pastorais e na educação, caracterizando-as como mediadoras nas comunidades e no espaço educativo. Apropriando-nos do conceito de Gramsci, esse líder mediador, capaz de pensar, planejar, mobilizar e realizar ações com outros e em favor da comunidade, caracterizamos como “intelectual orgânico” do espaço pastoral e educativo.
Na formação de multiplicadores ou mediadores que levam adiante o conhecimento teórico e prático e o compartilham em seu local de atuação, delineia-se um agente da pastoral da comunicação ou profissional da educação como um sujeito pensante que se apropria na produção de conhecimento favorece a reflexão crítica e  avalia suas próprias práticas, contribuindo para a formação de um pensamento comunicacional na área da pastoral e da educação. Referindo-se à formação no SEPAC Soares (2010), caracteriza como um “núcleo pensante” que está se formando com representatividade em todos os Estados do Brasil.
No “Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil”, o capítulo dedicado à Educação para a comunicação traz, em sua linguagem, a referência do diálogo, por diversas vezes, e recomenda adotar a metodologia da Educomunicação, a prática educomunicativa (CNBB 2014 - 99, p. 168-182), deixando o campo aberto para o trabalho da Educomunicação na pastoral. A formação para a comunicação no processo dialógico e participativo, como referendado no próprio documento, será um desafio para que a formação pastoral siga esses princípios educomunicativos.
Tendo em conta os pressupostos da Educomunicação e a partir da experiência de formação de agentes pastorais e culturais no SEPAC, entende-se que a Educomunicação pastoral envolve um processo de comunicação integrada que tem a pessoa como sujeito que participa, partilha, desenvolve a reflexão e produção de práticas culturais em diferentes linguagens, ações de intervenção na comunidade e na sociedade, com princípios éticos, contribuindo para estabelecer políticas no interior da comunidade e no diálogo com as realidades da comunicação. A Educomunicação torna-se um modo de ser e de atuar, um estilo de vida.

Fonte: SEPAC
Postado por: Administrador

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